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Expresso

Antes pelo contrário

Marcelo é rei, Costa nas suas sete quintas e PCP mais nervoso

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É a primeira vez que um candidato ganha umas eleições presidenciais sem fazer campanha. Sem cartazes, sem comícios, sem propaganda. Sem nada. E isto aconteceu, não porque Marcelo fosse imbatível (até Soares fez campanha quando, na sua reeleição, teve 70% dos votos), mas porque este é o primeiro candidato a um cargo político da “mediocracia”. A campanha de Marcelo Rebelo de Sousa fez-se nos últimos 16 anos, com os seus monólogos políticos em horário nobre. Foram os media que escolheram o candidato e fizeram a campanha. E isto abre um novo período na política nacional. Já não é na sociedade civil ou no aparelho partidário que os candidatos serão recrutados. É na classe político-mediática que tem presença mais assídua nos meios de comunicação social.

Marcelo terá, no entanto, um problema político. Apesar da sua vitória inequívoca, logo à primeira volta, fez uma campanha sem discurso político. Não tem, depois desta campanha e de ter garantido que não será mais do que um árbitro e de que fará tudo para garantir a sobrevivência deste governo, grande espaço de manobra para grandes intervenções. Se Marcelo for interventivo, fizer cair governos e tentar fazer nascer outros, trairá o compromisso eleitoral de ser um presidente sem convicções e sem programa político. Marcelo quis ser eleito com base em nada e será difícil aceitar que ponha alguma coisa, depois dos votos contados, onde jurou que nada existiria.

Sampaio da Nóvoa fez uma boa campanha. Bem diferente daquela que era prevista pelos que garantiam que se tratava de um amador, o que lhe garantiu um resultado acima do que lhe era dado nas sondagens. Desmentiu todos os que vaticinavam que a falta de notoriedade inicial o tornava desmerecedor de um apoio do PS. Que Costa nunca se poderia prestar a tal coisa. Sem apoios dos grandes partidos (é falso que máquina socialista se tenha mobilizado por Nóvoa), longe da notoriedade de Marcelo, Marisa, Belém ou até Paulo Morais, Henrique Neto e Tino de Rans, Sampaio da Nóvoa acabou por se afirmou como a única alternativa minimamente credível a Marcelo. Mas a dispersão da esquerda e a avassaladora notoriedade mediática de Marcelo mataram a corrida logo na primeira volta. Ainda assim, passou a ser uma figura política nacional.

Marisa Matias é a surpresa. Ou melhor, foi a surpresa na campanha confirmada nas urnas. Eu próprio tinha previsto para ela, durante a campanha, um resultado acima dos 10% e muito à frente de Maria de Belém. Assim se confirmou, depois de uma campanha competente, combativa e em que o Bloco voltou a apostar no voto feminino e de simpatia. E em que é mais uma vez premiado por parecer estar mais determinado do que o PCP na solução de governo encontrada. O resultado de Marisa tem, no entanto, um problema para a “geringonça”: aumentando a diferença entre BE e PCP, aumenta a fricção entre as duas forças, o nervosismo evidente dos comunistas e a probabilidade de haver desentendimentos.

A candidatura de Edgar Silva, pelo contrário, é a demonstração de um PCP desnorteado e sem estratégia. O apoio do PCP a Sampaio da Nóvoa era das coisas mais fáceis de defender e da mais naturais na cultura comunista. Ao decidir medir-se com o Bloco, neste confronto em que as figuras, mais do que os partidos, contam, o PCP arriscou imenso. E para esse risco Edgar era um candidato sem notoriedade e sem preparação. Ainda assim, o PCP poderia ter explorado a figura do ex-padre dedicado a causas sociais, que conhece, por experiência própria, o fundo do fundo da pobreza. Em vez disso, pô-lo a fazer de Francisco Lopes e a repetir a cassete. Conseguiu o pior dos dois mundos. Com consequências que obviamente ultrapassam estas eleições. Ainda ninguém me conseguiu convencer que esta candidatura tem causas internas ao próprio partido.

Maria de Belém é o caso catastrófico destas eleições e o seu vergonhoso resultado era já previsível. Devo dizer que não previa que fosse menos mau. Terá votado em Maria de Belém que desligou a televisão na segunda-feira e nunca mais a ligou. Não acho que a questão seja Maria de Belém ter feito uma má campanha. Maria de Belém era uma péssima candidata. As pessoas não o sabiam porque dela tinham apenas uma imagem superficial. Bastou raspar um pouco o verniz e surgiu tudo o que tinha de surgir: os ataques rasteiros aos oponentes, a total incoerência entre a imagem que quer passar de si mesma e a cultura de casta levada a um extremo que já ninguém tolera. A derrota de Maria de Belém é uma derrota de uma determinada forma de estar política que, com as redes sociais, a competição feroz entre meios de comunicação social e o total (e por vezes até histérico) escrutínio dos políticos já não é possível

Por fim, na divisão seguinte, só Vitorino Silva sai vitorioso. E Tino de Rans conquistou um voto sem qualquer sentido político e apenas de simpatia mediática. Foi uma espécie de Marcelo Rebelo de Sousa dos pequeninos. Ou então, um voto nulo com rosto. Não tiraria daí outra conclusão. Paulo Morais ficou aquém do que desejava. A sua conversa populista, com pouco talento oratório, sem qualquer coerência de vida, não chegou para arrebanhar votos de protesto significativos. Henrique Neto não foi o voto de quem estava zangado com Marcelo. Esses votaram em Marcelo.

As consequências destas eleições para atual situação política são, neste momento, três. Primeira: Marcelo está obrigado, por ter sido essa a sua campanha, a garantir a sobrevivência deste governo. Claro que ele tentará, e já deu sinais disso, que os entendimentos de António Costa passem da esquerda para o PSD. Mas para isso tem de conseguir aquele que será um dos seus principais objetivos: mudar a liderança do PSD. A sua vitória clara, logo à primeira, será, apesar da felicidade da direita, uma dor de cabeça para Passos Coelho. Segunda: a clamorosa derrota de Maria de Belém reforça ainda mais a posição interna de António Costa na liderança do PS. Os seguristas, de Belém a Assis, estão mortos e enterrados. Costa é dono e senhor do partido. Terceira: a enorme vantagem de Marisa Matias em relação a Edgar Silva reforça ainda mais a vantagem do BE em relação ao PCP e o seu peso relativo na maioria de esquerda, o que será um elemento de perturbação política, com os comunistas cada vez mais nervosos. Costa ganha dentro do PS, Marcelo enfraquece Passos e o Bloco enerva cada vez mais o PCP, deixando a “geringonça” mais tremida.