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Expresso

Almeida Santos: um democrata na corte

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Almeida Santos não era um homem do povo. Não, não estou a falar da sua origem social. Falo da origem política. Não era esse género de políticos que arrebata o povo com uma esperança que o faz caminhar para outro lado qualquer. Não era o comandante do navio. Também não trabalhava na casa das máquinas, onde estão os homens do aparelho, a quem se exige muita determinação e pouca cabeça. Era o que já toda a gente disse: um homem de bastidores. Que via a política como os cínicos com bom gosto literário gostam de a ver. A política em que Almeida Santos era príncipe era uma política de corte. A mim, que não sou cortesão, diz-me pouco. Mas Almeida Santos era, disso ninguém duvida, um dos melhores a fazê-la. Não seria, no sentido literal do termo, um socialista. Mas era, coisa nada pequena, um democrata que acreditava na liberdade

Almeida Santos é um dos fundadores da nossa democracia e isso chega para lhe devermos muito respeito. Tudo o que escrevo, toda a minha liberdade, a devo a homens como ele. Àqueles que, em desacordo por vezes violento, fundaram a democracia que temos. E ao contrário do que parece acontecer com muita gente, o saldo que faço destes 42 anos é francamente positivo. É justo, por isso, que respeite os homens que, com o impulso indispensável dos capitães de abril, a fizeram nascer e fortalecer. E era um homem de esquerda e um democrata. Duas qualidades políticas. Para mim, claro.

A descolonização, talvez a tarefa mais difícil que cumpriu, valeu-lhe muitos ódios. Repito o que imaginam que penso. O pecado original foi a colonização, mas essa é antiga e não faz sentido julgar. O crime foi não ter descolonizado nos anos 60, quando as restantes potências europeias o fizeram e a negociação e transição pacífica eram possíveis. Os homens que descolonizaram quando o poder de Estado em Lisboa era volátil, a legitimidade política era curta, os militares estavam em roda livre e a guerra ainda decorria nas colónias apenas evitaram um mal maior: que a democracia sucumbisse, como a ditadura sucumbiu, à guerra. E que mais vidas se perdessem em nome dos delírios imperais anacrónicos. Almeida Santos conhecia Moçambique e sabia como tudo isso era, felizmente, uma quimera. A descolonização não foi boa. Foi o que ainda podia ser.

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