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Expresso

Ainda somos todos Charlie Hebdo?

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Os cristãos têm todo o direito a indignarem-se com a capa do Charlie Hebdo que, no primeiro aniversário do atentado, passa da generalização que fazia com os muçulmanos para uma generalização com todos os crentes. As pessoas decentes têm todo o direito a indignarem-se com o cartoon nojento que diz que Aylan seria um abusador de alemãs se não tivesse morrido com três anos numa praia turca. Ninguém tem o direito de os proibir. Assim como qualquer pessoa tinha o direito de criticar os cartoons islamofóbicos do Charlie Hebdo sem ser acusado de os querer censurar ou de ser amiguinho de terroristas. Confundir a defesa da liberdade de expressão com a aceitação do que essa liberdade expressa é uma forma de tentar limitar a liberdade de crítica. Não é por acaso que o único momento em que há um consenso na defesa da liberdade de expressão e do direito à blasfémia é quando o foco de ataque é o islamismo. Com muita gente passa-se o mesmo que se passa quando ignoram os brutais números da violência doméstica em Portugal, gozam com qualquer lei que tente defender as mulheres do assédio sexual, mas rapidamente se tornam feministas quando os agressores e abusadores são muçulmanos. Falam então dos “nossos valores”. Dá vontade de perguntar: se são “nossos”, porque raio nunca vos vi a lutar por eles?

Quando foi o atentado contra o Charlie Hebdo fiquei aliviado por quase todas as vozes se terem juntado, não apenas para condenar o horrendo crime ou, como acontece sempre, voltar a anunciar o choque de civilizações, mas para defender a liberdade de expressão. Uma luta na qual sou um militante empenhado, até por obrigação de ofício. Mas rapidamente percebi que nem toda a gente compreendia bem o que estava a defender quando defendia de forma intransigente a liberdade de expressão. Cada vez que alguém condenava o ataque mas criticava alguns dos desenhos do Charlie Hebdo, logo vinha a turba em fúria colar quem exercia o direito à crítica aos piores dos censores. Ou mesmo aos terroristas.

A defesa da liberdade de expressão não implica concordância com o que é expresso. Nem sequer implica que se considere moral ou politicamente aceitável aquilo que é dito, escrito ou desenhado. Eu sou contra a censura, mas nem por isso considero que tudo mereça ser ouvido com o mesmo respeito. Extremo dos estremos: eu acho o racismo inaceitável, condeno-o e nem por isso defendo a censura a afirmações racistas. Acho que um negacionista do Holocausto é um ignorante perigoso, mas sou contra as legislações europeias que criminalizam o negacionismo. Como sou contra todo o tipo de criminalização de opiniões que não correspondam a apelos diretos e muitíssimo claros a atos ilegais ou violentos. Vou, portanto, muito mais longe do que a legislação que temos. E é por isso que muito rapidamente percebi, em toda a polémica em torno do Charlie Hebdo, o que já compreendera quando o debate foi sobre os cartoons de Maomé publicados num jornal dinamarquês: havia quem quisesse vincular todos os que se opusessem às tentativas de censura e à coação a uma concordância tácita com o conteúdo dos próprios cartoons. Uma espécie de chantagem que me obrigava, para defender a liberdade de expressão, a aplaudir inanidades islamofóbicas.

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