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Paulo Morais: a corrupção como nicho eleitoral

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O mesmíssimo Paulo Morais que dispara sobre todos os vagos e suposto conflito de interesses, quando tem à sua frente um caso concreto, prefere voltar à generalização: Maria de Belém não tem de responder pelos seus atos, mas por ser de um partido. Mesmo que haja, como há, atos seus que indiscutivelmente cabem nos ataques que Morais costuma fazer. Pelas costas. Porque Paulo Morais tem a vontade de conquistar que esta conversa garante, mas não tem o nervo frio para confrontar, cara-a-cara, os que fazem aquilo que condena. Assim como não tem o rigor para dar ao discurso sobre a corrupção a solidez política que ele precisa. Só que tomou de tal forma conta do tema que quem o ataca pode passar por cúmplice da corrupção. E ninguém quer correr esse risco quando está perante um candidato que aparece nas sondagens com menos de 2%. O beneficio não vale o custo. E é assim que o discurso sobre a promiscuidade entre o público e o privado balança entre dois extremos perigosos. De um lado, a relativização, onde tudo se deve resumir ao cumprimento da lei. Se a política trata do tema vem logo a acusação de populismo. Do outro, os que se dedicam à generalização sem rigor para ganhar uns votinhos e uns aplausos fáceis

Este é o primeiro texto sobre os candidatos à Presidência. No Expresso Diário, e por esta ordem: Paulo Morais, Henrique Neto, Edgar Silva e Marisa Matias. No semanário Expresso: Maria de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa.

Ao fim de 40 anos os portugueses aprenderam que as eleições legislativas não servem para eleger um cargo unipessoal. São eleições de representação onde todas as pequenas candidaturas fazem sentido, mesmo que apenas se batam para eleger um único deputado. É diferente com as eleições presidenciais. Aí, quem ganha fica com tudo, quem perde raramente volta a ser recordado. Assim, as pequenas candidaturas, com nulas possibilidades de vitória, têm menos relevância do que os pequenos partidos. Elas são tanto mais prováveis quanto menos entusiasmo provocam os candidatos e quanto menos renhida é a luta. A razão pela qual se multiplicam candidatos nestas eleições presidenciais é essa mesma: todos assumiram que Marcelo Rebelo de Sousa já ganhou, nenhum candidato com possibilidades de o desafiar parece provocar grande entusiasmo. Surge assim a oportunidade para os pequenos partidos afirmarem a sua agenda e figuras secundárias (ou menos do que isso) tentarem os seus 15 minutos de fama. As duas figuras mencionáveis que nos saíram na rifa foram Paulo Morais e Henrique Neto. Uma espécie de clones de Marinho Pinto e Medina Carreira. Começo por Paulo Morais.

O problema de Paulo Morais, sobre o qual se sabe o que diz mas nunca se chegou a perceber muito bem o seu percurso político, não é falar de corrupção. A corrupção é um problema central em democracia. A corrupção não suga apenas recursos, muitos recursos, que poderiam ser utilizados para o bem comum. Não cria apenas uma economia disfuncional. Ela rouba aos cidadãos a democracia. A cada homem e mulher cabe um voto. O corrupto vem por cima, paga mais e rouba-lhes esse voto. Torna a democracia numa fraude.

O problema de Paulo Morais é que, apesar de passar a vida a falar da necessidade de olhar para a corrupção como um problema sistémico, vê-a apenas como causa e nunca a pensa como consequência. Com raríssimas exceções, a corrupção é proporcional à desigualdade. E é natural que assim seja. A desigualdade social, económica e cultural é também uma desigualdade política. E a desigualdade política manifesta-se através de uma enorme dificuldade de acesso ao poder e aos mecanismos de fiscalização por parte da maioria da população. Não há povos mais corruptos e menos corruptos. Há condições sociais, económicas, culturais e políticas que favorecem a corrupção e desfavorecem o escrutínio do poder político. Podem fazer leis perfeitas, que não se acaba com a corrupção em sociedades profundamente desiguais, em que o povo não exerce na plenitude os seus direitos sociais e políticos.

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