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Expresso

O fantasma de Cavaco Silva

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No seu último discurso politicamente relevante, há uma semana, Cavaco citou-se a si próprio para que os outros reconhecessem nas suas palavras a autoridade política que não consegue ter, ameaçou o governo que entrou em funções sabendo-se que dificilmente poderá fazer mais do que se mostrar contrariado e exibiu a sua costumeira falta de aprumo institucional. Um bom resumo do que Cavaco Silva é hoje: autorreferencial, incapaz de compreender os limites do seu poder, rancoroso e ressentido, imaginando-se sempre com uma maior influência política do que tem e sempre a pensar na posteridade. Cavaco já foi o português mais poderoso. Não o é há muito e ou não o sabe ou não se conforma. Cavaco Silva passeia-se pelo Palácio de Belém, rodeado das glórias do seu passado, dando ordens inúteis a um país onde foi, mas já não é, senhor incontestado. Cavaco é hoje uma representação anacrónica do cavaquismo

O discurso de Cavaco Silva fez na última quinta-feira foi uma triste despedida. E por isso deve ser tratado não apenas pelo seu valor facial mas por o que diz deste homem que brevemente abandonará a Presidência e a vida política. Sem a dignidade que, apesar de tudo, merecia alguém que entrou na política profissional há 35 anos. Na sua última intervenção relevante, Cavaco Silva citou-se. É o que, de uma forma ou outra, faz quase sempre. Já entrámos mesmo na citação matrioska, em que Cavaco Silva cita um discurso em que já citava um outro discurso. Transformou-se num narrador da sua própria carreira política, gravando na pedra cada banalidade que debita. Primeira característica de Cavaco: todas as narrativas políticas são autorreferenciais.

Depois, deixou claro o que todos sabíamos: que não queria dar posse àquele governo. Explicou que apenas o fazia porque a Constituição não lhe permitia dissolver o Parlamento. A afirmação é, em si mesma, pueril. Não é um acidente do acaso não ser constitucionalmente permitido ao Presidente da República dissolva um parlamento acabado de ser eleito. O legislador quis impedir que o Presidente mandasse repetir eleições até que os resultados fossem do seu agrado e quis reforçar os poderes da Assembleia da República, garantindo que é na composição saída dos processos eleitorais que se procuram as soluções de governo. Nesta limitação está uma parte da natureza muito mitigada do nosso semipresidencialismo. Ao queixar-se disto o Presidente queixa-se de termos um sistema que não lhe dá o poder discricionário de decidir em que quadro político se encontram soluções. E é claríssimo, pelas suas sucessivas intervenções, que apesar de aceitar contrariado os limites dos seus poderes, não compreende as razões mais profundas desses limites. Segunda característica de Cavaco: todos os limites ao seu poder são para ele incompreensíveis.

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