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Expresso

Um acordo ainda curto para o que vai ser preciso

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Ao não entrarem no governo, BE e PCP ficaram numa situação difícil: não gerem a governação quotidiana e terão de garantir a estabilidade do governo. Pagam o preço dos erros sem os poderem corrigir. Têm a bomba atómica, mas não têm exército. E todos os sinais dados depois do encerramento das negociações são os de manter um cordão sanitário entre as agendas dos três partidos. Ao optarem por uma coabitação distante que não os contagie com o espírito da convergência, os três partidos enfraquecem a solução que engendraram. Se este governo não conseguir ser diferente do anterior, PCP e Bloco acabarão por suspender o seu apoio parlamentar. Para ser diferente tem de enfrentar uma poderosa oposição mediática e corporativa, que tão histericamente se exibiu no último mês. E para a enfrentar precisa de um apoio social que este temeroso entendimento lhe nega. Foi dado um passo histórico no sistema político-partidário. Mas ainda não estão criadas as condições para que a esse passo histórico corresponda uma mudança profunda na vida das pessoas. Para isso é preciso que os eleitores dos partidos de esquerda não se contentem com um acordo mínimo para uma mudança de governo. Que obriguem os partidos a transformar este acordo numa maioria política real.

Sobre as razões profundas dos entendimentos entre o PS, BE e PCP escrevi aqui.Eles nasceram de uma pressão externa aos próprios partidos, vinda de eleitores que não suportavam a ideia de continuar mais um dia que fosse com um governo de Pedro Passos Coelho. A isto a generalidade dos comentadores chamou de coligação negativa. Todas as coligações pós-eleitorais começam por ser negativas, tendo como objetivo suplantar as forças adversárias e garantir maiorias parlamentares. Porque todas as coligações desta natureza se fazem entre forças com identidades, posições e programas diferentes, que concorreram em competição às eleições. A questão é se elas conseguem transformar-se em coligações positivas. Um processo que pode ser demorado e cujos primeiros passos ainda não fora realmente dados.

Não tenho qualquer dúvida de que a esmagadora maioria dos eleitores de esquerda está satisfeita com a solução encontrada. Assim o dizem, aliás, as sondagens. E esta pressão externa teve como resultado um passo histórico que mudará para sempre o sistema político-partidário português. Ainda assim, ao não entrarem no governo, BE e PCP ficaram, ao contrário do que tem sido dito, numa situação difícil: não escolhem ministros, não gerem a governação e terão de garantir a estabilidade do governo. Pagam o preço dos erros sem os poderem corrigir. Têm a bomba atómica, mas não têm exército.

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