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Expresso

Porque Sócrates não verga

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Mandar Sócrates para casa com uma pulseira electrónica era a única forma de reduzir a pressão pública para que haja uma acusação formal sem dar o braço a torcer. Mas José Sócrates não está disposto a facilitar a vida aos investigadores. E, nesta matéria, faz bem. Quem, ao fim de meio ano, continua a não ter uma acusação para apresentar, tem de permitir que o arguido aguarde em liberdade. Não se prende para investigar, investiga-se para julgar

Perigo de fuga não há. Disso já falou quem tinha de falar. Continuação da atividade criminosa, não vejo como, quando aquilo de que se fala é de corrupção e José Sócrates não ocupa qualquer cargo que lhe permita ser corrompido. Por fim, não vejo em que é que uma pulseira electrónica pode evitar que perturbe o processo. Assim, a tentativa de pôr Sócrates em prisão domiciliária com pulseira electrónica é difícil de defender.

Quando, meio ano depois, continua a não haver qualquer acusação, é difícil manter a prisão preventiva, em casa ou na prisão. Porque Sócrates é inocente? A prisão preventiva, fora ou dentro de casa, não tem nada a ver com a culpabilidade ou inocência. Tem a ver com os três motivos explicitados na lei que muito dificilmente podem continuar a ser sustentados neste caso. 

Privado da sua liberdade, Sócrates não pode decidir grande coisa. Mas a lei permite-lhe recusar a pulseira eletrónica. E perante a possibilidade de fazer uma escolha, o ex-primeiro-ministro quis deixar clara a sua resistência ativa a esta prisão. Mandar Sócrates para casa com uma pulseira eletrónica era a única forma de, sem dar a torcer, reduzir a pressão pública para a apresentação de uma acusação formal. Mas José Sócrates não está disposto a facilitar a vida aos investigadores. E, nesta matéria, faz muito bem. Quem, ao fim de meio ano, continua a não ter uma acusação para apresentar, tem de permitir que o arguido espere em liberdade. Não se prende para investigar, investiga-se para julgar.

A escolha que Sócrates fez é óbvia. Mas muitíssimo dura. Ela retrata a personalidade do ex-primeiro-ministro. Se é verdade que, como todos sempre souberam, ele se alimenta do combate e do conflito, decidir continuar a viver numa cela não é para qualquer um. Revela coragem. O que obriga as pessoas, independentemente das suas convicções sobre a culpa ou inocência de Sócrates, a reconhecer-lhe pelo menos essa qualidade. Só os maniqueístas, que não compreendem como todos os humanos são muitas coisas ao mesmo tempo, é que ainda não tinham dado por isso.