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Antes pelo contrário

Governo desistiu do País e quer que os portugueses façam o mesmo

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Mesmo tendo, como deve ter, um posicionamento político e ideológico determinado, um colunista deve usar da boa fé e da racionalidade para analisar o comportamento de um governo. Concentrar-se nos propósitos de cada medida e nas suas consequências. E partir do princípio de quem toma as decisões está genuinamente convencido que elas são as melhores possíveis para o País. E explicar, quando seja essa a sua opinião, que ou os objetivos estão errados ou as suas consequências serão diferentes do que se espera.

Duas exceções a esta linha de conduta: quando os governantes são corruptos ou imbecis. As motivações dos primeiros não merecem respeito, o sentido de cada decisão tomada dos segundos é inexistente. Neste caso, o trabalho de quem faz análise política, sobretudo quando é ideologicamente empenhado, fica muito mais desinteressante. Para a corrupção não há qualquer resposta a não ser a indignação. Para a imbecilidade não há qualquer reação possível para além de um suspiro e um encolher de ombros.

Como sou obrigado a partir do princípio de que, até prova em contrário, este governo não se move pela corrupção, tenho de concluir que somos dirigidos por idiotas. Porque nenhuma explicação racional pode ser dada ao discurso que o secretário de Estado da Juventude e do Desporto fez em São Paulo. Perante a crise, tem um conselho a dar aos jovens portugueses: que emigrem. "Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras", disse. Porque, afirmou, voltará´do estrangeiro melhor profissional. Se alguma vez voltar, claro está.

Um pai pode, com tristeza, dizer isto a um filho. Um cidadão pode dar este conselho a um amigo. Mas um governante não pode dizer isto a um jovem. Porque é algum pecado emigrar? Claro que não. Porque, para além do governante assumir a sua própria derrota logo à partida, está a prejudicar o País. A emigração, sendo em geral positiva para os países de acolhimento, é, também em geral, péssima para os países em dificuldades. Sobretudo quando essa emigração é de jovens quadros. O País perde, nesses momentos, os mais competentes, os mais preparados e, já agora, aqueles em quem investiu recursos para garantir o seu futuro. É como uma empresa dizer aos seus melhores profissionais, que andou a formar durante anos, para irem trabalhar para outro lado. O que concluímos? Que a empresa vai fechar as portas. Acontece que, ao contrário das empresas, os países continuam por piores que sejam os que o dirigem.

O problema deste governo é que, sabendo que não tem qualquer saída para esta crise, optou pelo "niilismo" político. O derrotismo e a desistência é a única coisa que tem para oferecer aos cidadãos. Quando o primeiro-ministro diz que o País tem de empobrecer e um secretário de Estado manda os seus jovens ir embora só podemos tirar uma conclusão: que não só são inúteis como têm plena consciência disso mesmo. E se sabem que são inúteis, deem lugar a outros. Em vez de irem embora os jovens, vão aqueles que nada querem fazer por eles. Talvez noutro lado qualquer aprendam qualquer coisa. E, mesmo assim, não fazemos questão que regressem.