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Expresso

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    Todos parecem não estar à altura das suas responsabilidades. Administradores demissionários porque parecem viver mais em torno dos seus umbigos do que dos problemas do banco que aceitaram dirigir. O governo, porque alguém com responsabilidades assumiu um compromisso que não podia ser assumido, o psd e o cds porque, desde o início, se têm dedicado a tentar criar o caos para levar o banco público ao colapso, forçando uma privatização. E o bloco, que acabou por fazer o papel de idiota útil

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    Passos Coelho só pode oferecer ao País a conversa do Diabo e a conversa do Diabo impede o PSD de passar para outra fase e começar a falar do futuro e do presente em vez do passado, de fazer propostas em vez de agoirar. Enquanto o PSD não mudar de liderança a geringonça está segura. Se não quiser regressar a uma matriz mais social-democrata ou manter-se na linha radical liberal, o PSD pode ir com a onda do momento e optar por uma liderança de recorte autoritário. Rui Rio seria uma espécie de Trump suave que, apesar da sua relação tensa com a democracia e com a liberdade, daria resposta ao mal-estar ainda dentro do sistema. De todas, parece-me a mais provável. E quanto menos houver para atacar na estratégia económica do governo mais sobrará para os temas de que Rio gosta. Há apenas um pormenor: falta a Rui Rio a determinação de Trump. O estilo autoritário não casa bem com o de quem espera sempre que alguém o leve no andor

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    As forças mais progressistas não se devem limitar a aceitar a chantagem do mal menor. Até porque ela não faz mais do que adiar o mal maior. Devem negociar esse mal menor, mantendo uma postura totalmente autónoma da direita liberal e cobrando o seu voto com reais alterações programáticas. Da mesma forma que Clinton teve de ceder ao programa de Sanders para contar com o seu apoio, Fillon deverá ser obrigado a abandonar a sua agenda de liberalização para ter o voto da esquerda numa segunda volta. Ou então assumir as responsabilidades da sua própria derrota. A esquerda só sairá do buraco em que está quando deixar de ser um atrelado de agendas alheias. Foi essa secundarização ideológica, até quando governa, que levou os socialistas franceses à sua atual irrelevância. Não é por acaso que o PS português é dos poucos partidos socialistas ou social-democratas europeus que, estando a governar, cresce nas intenções de voto. Porque lidera o conjunto da esquerda com base num programa que corresponde à sua tradição política em vez de se contentar em ser uma cópia derrotada de tradições que lhe são alheias. E é por isso que fenómenos eleitorais contra a democracia não estão a crescer por aqui. Por uma vez, somos uma boa ilha na Europa

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    Não é estranho que o voto da esquerda esteja a rumar para a direita nacionalista. A crise da esquerda é, apesar da sua tradição internacionalista, a crise do Estado-Nação. Porque toda a sua agenda reformista depende do Estado e do território em que o povo exerce a democracia. Da sua política fiscal redistributiva às leis laborais, dos serviços públicos à intervenção do Estado na economia. Não há social-democracia global. Nem europeia, como temos amargamente aprendido. O grande desafio da esquerda é voltar vincular a ideia de Nação a valores democráticos e direitos sociais, como, aliás, fez em todos os momentos em que foi historicamente determinante. É contrapor à visão étnica e xenófoba que a extrema-direita tem da Nação a ideia de soberania democrática e de cidadania. O que a esquerda tem de fazer não é tentar democratizar o globalismo ou aquilo em que se transformou o europeísmo. Isso é hoje uma impossibilidade prática. É redemocratizar o patriotismo. Se não o fizer, está condenada a ter de escolher entre neoliberais e fascistas, como provavelmente acontecerá na segunda volta das eleições presidenciais francesas

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    É interessante comparar a miséria que se vive nos centros de investigação com o novo-riquismo bacoco com que o Web Summit foi recebido em Lisboa. Podemos discutir os números de magia do ministro da Ciência e Tecnologia para que o aumento da precariedade pareça o oposto, para que o empurrar de responsabilidades para os centros de investigação pareça corajoso e para que a redução dos valores de muitas bolsas pareça fartura. Mas há uma coisa que não podemos negar, porque se mede em dias e meses: os resultados do concurso para a atribuição das bolsas da FCT para doutoramentos e pós-doutoramentos, de que depende quase toda a investigação pública que se faz em Portugal, tinham de ser conhecidos em 90 dias úteis e só o serão sete meses depois das candidaturas entregues. Manuel Heitor garantiu que ia cumprir o calendário e não o cumpriu, por largo falhanço, logo no primeiro concurso. O que quer dizer que, até ver, não é mais competente do que Nuno Crato. Não me recordo de pior coisa para se dizer de um ministro

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    Foi em França que a extrema-direita entrou primeiro no grupo dos grandes. Foi em França que, através da filha de Le Pen, procurou os mínimos de “respeitabilidade”. E é em França que toda a esquerda está a ser dizimada. É provável que todos os eleitores de esquerda, dos mais centristas aos comunistas, sejam obrigados a escolher entre um admirador de Thatcher e uma candidata de extrema-direita. Foram impressionantes os ataques a direitos sociais e até democráticos levados a cabo pelos socialistas franceses nos últimos anos. A direita teria dificuldade em chegar tão longe com tão pouca oposição. E os que estão à esquerda do PSF não conseguiram liderar a contestação a este desvario. O preço do travestismo político dos socialistas não foi apenas a morte dos socialistas. Foi o desaparecimento da esquerda do debate político. O resultado está à vista com confirmação de que Trump não foi um acidente

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    Só em Portugal são desperdiçadas um milhão de toneladas de alimentos por ano (17% do que produzimos). A preferência dos distribuidores por legumes e frutos com tamanhos e formas normalizados, sem que isso tenha qualquer relação com a qualidade, é responsável por quase um terço do desperdício da nossa produção agrícola. A Cooperativa de consumo Fruta Feia é uma espécie de ovo (ou maçã) de Colombo. Os produtores vendem a um preço justo a fruta e os legumes que fogem dos padrões normalizados de tamanho e forma e que, por nenhuma razão racional, iria para o lixo. Os consumidores conseguem comprar fruta e legumes de excelente qualidade (muito melhor do que nas grandes superfícies) a um preço mais baixo. A Fruta Feia faz o que costuma faltar a estes projetos alternativos de comércio: em nome de uma boa causa garante vantagens para consumidores e produtores, não dependendo da sempre falível generosidade humana. É uma ilha de racionalidade económica num mercado onde distribuidor, consumidor e produtor não têm o mesmo poder e o primeiro consegue impor regras piores para todos os outros. E casa esta racionalidade com a proteção do ambiente e a defesa da economia local

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    O principal segredo do novo conselheiro de Trump para a comunicação, que durante anos dirigiu um site e um grupo de pesquisa para perseguir alguns políticos, é a fragilidade dos media. Ele explica: “Hoje não temos o Watergate ou Pentagon Papers, porque ninguém pode pagar a um repórter para andar sete meses atrás de uma história. Nós podemos. Trabalhamos como apoio.” O que a máquina montada por Steve Bannon fez nos últimos anos, com meios inimagináveis para os media tradicionais, foi especializar-se em algumas histórias e pessoas (como Hillary Clinton ou Jeb Bush) e não sair delas até ter o que quer. Os seus critérios foram tudo o que contribuísse para a ascensão da extrema-direita ao poder. Não, Bannon e os seus associados não são intrépidos combatentes pela transparência e a honestidade. São soldados prontos para destruir o que existe e sobre as suas ruínas fazer subir ao poder políticos de recorte autoritário. Sem precisar de uma única mentira e usando os media tradicionais como o seu mais poderoso instrumento de credibilização. Financiados por interesses que veem com bons olhos a dissolução de qualquer credibilidade das instituições públicas e consequente enfraquecimento do poder do Estado face ao poder financeiro, Bannon pratica a velha política da terra queimada. Este é o preço que pagamos pela morte financeira dos media tradicionais. Sim, são péssimos, tendenciosos, manipulados e incompetentes. Mas pelo menos são escrutináveis. Agora, a conspiração contra a democracia chegou á Casa Branca. E nem sabemos ao certo quem a pagou

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    Ninguém está a devassar a sua vida privada dos administradores da CGD ou a pedir-lhes o impensável. Está a pedir-lhes o mesmo a que foram sujeitos todos os deputados, o primeiro-ministro e o ministro das finanças que os nomearam, todos os gestores públicos que trabalham nas empresas do Estado, incluindo para a Caixa. Se acham que estão acima de todas estas pessoas temos um problema de megalomania. Se acham que o Tribunal Constitucional não tem autoridade sobre eles é ainda mais grave do que isso. Mas se vão demitir-se do cargo, têm o dever de esperar pela recapitalização pública da Caixa não dando aos que conspiram pela privatização da CGD a oportunidade de aproveitarem o caos para conseguirem o que desejam. Se não estão à altura dos seus deveres enquanto gestores públicos, que ao menos estejam à altura dos seus deveres como portugueses. Porque quanto ao resto, esta novela já cansa. Os caprichos destes senhores não valem a tinta que já gastámos com eles e o dinheiro que ainda vamos gastar

  • Antes pelo contrário

    Daniel Oliveira

    A elite dos democratas não tem qualquer legitimidade para se indignar com os eleitores. Foi ela que, ignorando o sentimento de revolta popular, conspirou para que os americanos fossem obrigados a escolher entre um autoritário que falava para o povo e alguém que representava tudo o que ele mais desejava rejeitar. Se a esquerda não perceber que é má ideia tratar os desesperados desta globalização como estúpidos, ignorantes e fascistas, maltratando os que devia ser ela a representar, isto será só o começo. Depois do Reino Unido e dos EUA, a França e a Alemanha. Se os democratas que recusam a privatização da liberdade e o empreendedorismo da miséria querem mudar alguma coisa têm de começar por mudar o seu lado. Clarificando o seu discurso económico e social sem medo de perder a respeitabilidade junto daqueles que os querem mansos ou da costumeira acusação de populismo. E representando, no lugar da extrema-direita, a sede de mudança que se sente em cada vez mais gente. Ou a esquerda resgata o seu papel de representante dos trabalhadores e dos ignorados pelo progresso ou entregará a democracia aos que, depois de dirigirem a revolta contra os imigrantes e as minorias, garantirão, como sempre fizeram na história, os privilégios para os do costume