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Expresso

Luís Carmelo

Valença e a alma ferida

Quando a 'alma colectiva' se sente ferida - o pretexto pode ser o centro de saúde ou qualquer outro -, não há voz que se deixe perceber: o grito e o ritual substituem-na sem cessar, dando assim sentido à perda que não se pode nem quer aceitar. 

Luís Carmelo

O estado moderno só encontrou a sua "plenitude com a aparição de uma nova religião: o nacionalismo". A frase à Monsieur de La Palice é de um jovem investigador da Complutense, Julio Galán, e encontrei-a, há minutos, numa citação que fiz num texto já com cinco anos de idade.

Não posso estar mais de acordo, até porque nunca fui nacionalista.

Aquilo que a nação veio traduzir, no final de setecentos, não se esvai nem se expande por se ser ou não nacionalista. É irrelevante, até porque o que estava em causa era a percepção e o reconhecimento da existência de uma 'alma colectiva'. O mesmo se poderia dizer das grandes teleologias da esquerda de meados de oitocentos. Ao fim e ao cabo, todas elas visavam a superação de obstáculos que a teoria definia com a clareza e a lógica de um microscópio.

Eis duas religiões da modernidade: uma tradicionalmente mais conotada com a direita, embora originalmente bastante jacobina: a nação; outra tradicionalmente mais conotada com a esquerda, embora originalmente de direita (a avaliar pela matriz do Leviatã de Hobbes, por exemplo).

Confusões interessantes como as que se revelam pela boca do generoso povo dos fóruns radiofónicos da manhã que sabiamente analisa o nosso dia-a-dia. Hoje, as bandeiras vermelhas e amarelas de Valença foram tema. A explosão tomou conta da cena e houve quem visse o fim do mundo nessas duas cores quentes e tauromáquicas, assim como houve brados sindicalistas que registaram a bonomia e a excelência da causa.

É caso para dizer que a racionalidade é uma espécie de lapso no meio do turbilhão. Nem direitas, nem esquerdas, nem muito menos os nacionalismos explicarão seja o que for, se os motivos da luta se confundirem com os de uma religião. Quando a 'alma colectiva' se sente ferida - o pretexto pode ser o centro de saúde ou qualquer outro -, não há voz que se deixe perceber: o grito e o ritual substituem-na sem cessar, dando assim sentido à perda que não se pode nem quer aceitar.

O governo saberá tudo isto. Duvido é que saiba lidar com tudo isto.

A prática já demonstrou que a engenharia social, por mais correcta e lógica que seja, depara sempre com o anátema da "Maria da Fonte", capaz por si só de fazer cair ministros e alimentar crises governamentais ou mesmo de regime. É uma das muitas fragilidades da democracia, afinal um preço que todos pagamos para vivermos civilizadamente e com alguma decência.