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Expresso

Luís Carmelo

O abismo da confiança

Custa muito construir uma marca, mas é fácil ver uma marca arruinar-se: basta uma ocorrência minimamente significativa que abale tudo o que antes se fez. Com as nomeações governamentais acontece o mesmo, com a diferença de que essa ocorrência minimamente significativa já, há muito, que se tornou em bola de neve. 

Luís Carmelo

"António Castro Guerra, ex-secretário de Estado-Adjunto da Economia de José Sócrates, é o novo chairman da Cimpor": lemos uma notícia como esta quase todas as semanas. Nada tem de anormal. Trata-se da nomeação para um cargo de relevo numa grande empresa. Neste caso concreto, sabe-se que é já uma segunda escolha, na medida em que o governo havia antes proposto Mário Lino para desempenhar idênticas funções. Lembremos que a Cimpor é uma empresa, cuja privatização atravessou várias fases, desde o ano de 1994, e onde o estado detém, hoje em dia, uma 'golden share' de 10%.

Lê-se uma notícia destas e toda a gente sabe o que toda a gente pensa.

De qualquer modo, é demagógico e até populista dar apenas corpo a esse imediato 'estado de alma' que, tal como um arrepio, atravessa de ponta a ponta a nossa sociedade. A voz do taxista - passe a metáfora que não pretende retirar dignidade à profissão - é a primeira a repercutir esse sentimento geral - "São sempre os mesmos, saem do governo e arranjam logo um tacho!".

Mas a verdade é que o indígena ouve a alocução e silencia concordando ou concorda ampliando. É coisa corrente. Há mesmo quem se dedique à opinião, no coração dos media, e que mais não faça do que ampliar ainda mais esta construção. Exemplos há muitos. É o caminho mais fácil e, por vezes, mais apetecível.

Contudo, o nomeado pode e deverá ser - oxalá seja! - uma pessoa competente, íntegra e apropriada para desempenhar o cargo. Espera-se, também, que a esfera concreta onde se processou a decisão tenha sido particularmente ponderada e que os critérios adoptados tenham sido cristalinos. Espera-se tudo isto. E muitas vezes o que se espera confirma-se. Mas, infelizmente, muitas - talvez excessivas - vezes tal acabou por não se verificar.

O fenómeno funciona como as marcas: custa muito construir uma marca: há que alicerçar credibilidade junto do público, há que preservar a imagem e há que manter um óptimo serviço ou produto. Mas é facílimo, de um dia para o outro, ver uma marca arruinar-se: basta uma ocorrência minimamente significativa que abale toda a estrutura do trabalho antes levado a cabo. Com estas nomeações governamentais acontece precisamente o mesmo, com a diferença de que, há muito, que essa ocorrência minimamente significativa já se transformou em bola de neve. E o povo sabe disso.

O povo, enfim, as pessoas... deixaram de confiar. Há muito tempo que esta falta de confiança é o lado mais frágil da nossa democracia. Mas a falta de confiança não se faz apenas sentir por causa deste tipo de nomeações. Acontece, também, por causa da qualidade e da morosidade da justiça ou por causa dos sucessivos descarrilamentos da educação. Acontece um pouco por todo o lado: como uma bactéria que já minou grande parte da nossa iniciativa. E da nossa capacidade de crer colectivo, enquanto país e comunidade.