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Expresso

O Brasil e São Paulo como reflexo do mundo

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O Brasil é por essência um país multicultural e um raro exemplo no que se refere a uma certa convivência pacífica e respeitosa entre raças, culturas e religiões. O filme “O Sentido da Vida” propõe-se estabelecer uma relação entre a formação cultural, social e económica do país como reflexo da história do mundo

O Brasil é por essência um país multicultural e um raro exemplo no que se refere a uma certa convivência pacífica e respeitosa entre raças, culturas e religiões. Pelo menos esta é a versão disseminada e defendida por muitos historiadores, antropólogos e estudiosos brasileiros ao longo das décadas.

Este perfil agregador, enraízado no nosso protagonista - um jovem cartógrafo oriundo de Erechim, uma cidade do interior do Rio Grande do Sul -, conduzirá o documentário, através de um olhar aberto e sem preconceitos, por uma jornada que percorre 28 países numa busca pelo sentido da vida e das suas raízes.

De onde viemos, para onde vamos e quem somos? O que nos determina? Quais as nossas referências culturais e geográficas. Estas interrogações assumem um caráter universal ao procurar a origem (e função) das particularidades culturais que nos moldaram (à humanidade), o caráter e a nossa gênese como sociedade. No Brasil por exemplo, seriam elas predominantemente portuguesas? Alemãs? Japonesas? Italianas? Árabes? Indígenas? O que seria, enfim, a cultura e a sociedade brasileira se não um resultado da mistura de todas elas?

Giovane é portador de paramiloidose, uma doença degenerativa e sem cura, cuja origem se deu em Portugal e foi espalhada há 500 anos ao redor do mundo pelos navegadores portugueses e seus descendentes. Atualmente, a doença continua com forte incidência, principalmente nos territórios que fizeram parte do antigo império português. Especificamente no Brasil, país com mais de 200 milhões de habitantes, não existe um levantamento concreto da quantidade de indivíduos que possuem esta doença, mas estima-se que sejam milhares de portadores como Giovane. Muitas das vezes mal diagnosticados pelo profundo desconhecimento.

Saindo de Erechim, Giovane Brisotto decide iniciar sua jornada por onde tudo começou, mais especificamente no distrito do Porto (Portugal), região de origem de seus familiares imigrantes e um dos principais focos da doença no mundo. Assim, ao revisitar sua história, retoma a história da formação da própria sociedade brasileira. O primeiro choque cultural que experimenta diz respeito precisamente à língua que, apesar de ser a mesma, é diferente do português brasileiro. Questiona-se como povos que partilham o mesmo idioma, a mesma gênese, podem aparentemente ser tão distintos? A partir daí, pautado por um levantamento histórico e contemplando a universalidade dos fenómenos, o documentário acompanha o nosso personagem na busca de respostas às principais questões pessoais e humanas, em diversos países e culturas, estabelecendo uma relação entre a sua história e a história do mundo.

É de fundamental relevância o facto do personagem ser um brasileiro nato, já que ele representa, no filme, o nosso olhar para o mundo. O Brasil é fruto de um processo de miscigenação, o que não deixa de ser um ponto positivo do colonialismo, pela riqueza que gera. Como nação multiculturalista, historicamente tolerante, acolhedora e agregadora de culturas distintas, o Brasil dota o nosso herói de uma capacidade (talvez) única: abertura e versatilidade para entender, aceitar e apreender outras culturas, o que o levará a fazer uma busca pela universalidade e quais os pontos em comum entre a sua história e a história do mundo.

Durante a sua viagem Giovane encontra pelo mundo vários ecos do Brasil e da sua cultura ancestral portuguesa , por exemplo, no Japão, quando ele se der conta de que cerca de 60 palavras do japonês provêm do português; ou quando chegar à principal praça de Macau, na China, pavimentada com pedras portuguesas, ele irá sentir-se no centro do Rio de Janeiro. Ou Cochim, na Índia, que o remete às cidades do nordeste brasileiro. Culturas orientais nas quais se consegue reconhecer.

É este sentimento de estranheza que será determinante para responder a uma das principais questões que se coloca: qual a nossa origem? E quais as variantes que nos determinam?

A metrópole de São Paulo

Para muitos, viver na metrópole de São Paulo é uma experiência desconcertante. Concentrar mais de 20 milhões de pessoas numa área metropolitana de 7.946,84 Km² é algo que não é fácil de assimilar. Sobretudo se tivermos em consideração que Portugal, o país de origem do realizador, possui pouco mais de 10 milhões de habitantes. Esta cidade é um universo à parte, “um país compacto”, como lhe chamará Valter Hugo Mãe numa das cenas do filme. Um monstro de cimento que suga toda a energia em seu redor e que a vomita em dobro, levando cada um a sentir que é realmente apenas uma pequena peça, parte de um mecanismo gigante.

No filme, São Paulo é visto através de uma vivência antagônica: a de Valter Hugo Mãe, que vive em Portugal numa pacata vila de pescadores e que encontra aqui o máximo de urbanidade que poderá atingir numa cultura que lhe é confortável (na sua Nova Iorque de Língua Portuguesa).

São Paulo, neste caso, assume uma forma de arquivo e cápsula do tempo e se torna síntese dos problemas vividos num mundo globalizado e urbanizado do século XXI. Colapso na mobilidade urbana, crise hídrica, poluição, desigualdades sociais, violência, crises, greves, etc. tudo são questões e problemas do cotidiano desta metrópole e do mundo capitalista como um todo.

São Paulo será apresentada como laboratório, como uma síntese deste mundo, para que possamos discutir qual afinal o sentido de tudo isto? O que nos faz morar na maior metrópole da América latina, campeã em casos de distúrbios mentais no mundo, e ainda continuarmos aqui? Por que é que um escritor português reconhecido encontra a sua paz numa das metrópoles mais caóticas do mundo? Que homem será um jovem colombiano que canta nas ruas para conseguir comer? Como ficará a vida numa metrópole de 20 milhões de habitantes com extremos tão gritantes à beira de um colapso hídrico e energético? São questões que se pretende discutir cruzando as descobertas e questões levantadas pelo nosso herói durante a sua jornada, usando São Paulo como o espelho do mundo.

Valter Hugo Mãe no restaurante situado no topo do Edifício Itália em São Paulo
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Valter Hugo Mãe no restaurante situado no topo do Edifício Itália em São Paulo

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À conversa com a cartonista Laerte
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À conversa com a cartonista Laerte

No Museu da Língua Portuguesa, São Paulo
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No Museu da Língua Portuguesa, São Paulo

No Centro de São Paulo
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No Centro de São Paulo

No conhecido beco do Batman com os seus grafites
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No conhecido beco do Batman com os seus grafites

No Museu de Arte Contemporânea (MAC-SP)
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No Museu de Arte Contemporânea (MAC-SP)

No Elevado Costa e Silva mais conhecido por Minhocão (o elevado atravessa alguns bairros de São Paulo)
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No Elevado Costa e Silva mais conhecido por Minhocão (o elevado atravessa alguns bairros de São Paulo)

  • "O Sentido da Vida" é o nome do novo filme de Miguel Gonçalves Mendes ("José e Pilar") e também o que se procura entender com esta viagem de volta do mundo, cujo diário de bordo pretende ser este blogue. Um registo dos relatos, impressões e experiências vividas em cada uma das paragens desta aventura que teve início em Lisboa e irá terminar no Polo Sul.