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Na Boca de Deus: O primeiro Cruzamento

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Na Islândia, aquela que é considerada a Boca de Deus, Valter Hugo Mãe e Hilmar Örn Hilmarsson cruzam-se acidentalmente pela rua naquele que será um encontro decisivo para o futuro. A estrutura de um filme é esboçada com base no material rodado, e esta é uma antevisão do que poderá ser o encontro de Valter Hugo Mãe e Hilmar Örn Hilmarsson ao longo do filme.

Valter Hugo Mãe, escritor alimentado a hambúrgueres e best-seller nos países de língua portuguesa tem ideia para um novo livro. Um livro que consiga condensar em si toda a maldade humana e que seja narrado sobre o ponto de vista de uma criança de 11 anos que em teoria seria indefesa para combatê-la. Desloca-se então à Islândia, uma ilha/país, inóspita mas cuja pulsão de vida é premente e que será o palco central do seu romance.

Hilmar Örn Hilmarsson, principal músico islandês, mentor de Bjork e Sigur Ros e pai de duas filhas, é entrevistado na sede de sua igreja. O jovem repórter pergunta-lhe se costuma ser ridicularizado por ser padre e como conseguiu que a sua religião fosse instituída como uma religião oficial islandesa. Em casa as duas filhas comentam como preferiam que o seu pai não fosse padre e a mais nova confidência à mais velha o seu medo de morrer

Valter escreve a história de duas irmãs: Haldora e Sigridur - contando como a morte de uma delas esvaziará para sempre a vida da outra. Admirador da cultura islandesa, batizada por nomes como Halldór Laxness, Bjork ou Sigur Ros, Valter Hugo Mãe viaja até a ilha em pesquisa para a construção do seu livro, que será dedicado ao maior músico islandês vivo, Hilmar Örn Hilmarsson, um ídolo de sua juventude.

Quatro da manhã, Hilmar está sentado no sofá assistindo ao filme “Gravidade”, a crise de insônias será cada vez maior enquanto não terminar a nova banda sonora em que trabalha para um filme finlandês. Seis da manhã, Hilmar dirige-se para o campo de lava onde é construída uma nova estrada contra a qual lutou e o levou a ser preso. Com o seu gravador, capta o som das máquinas enquanto destroem a lava milenar. No estúdio, utiliza a batida e a melodia das máquinas como base para um tema eletrônico.

Tal como a maioria dos escritores contemporâneos, Valter é assediado permanentemente por inúmeros convites para palestras, convenções e festivais literários, o que transtorna constantemente o seu processo de escrita.
Em Macau, na China, no meio de milhares de néones irá escrever o quanto a paisagem da Islândia é branca e inóspita. Nos inúmeros eventos em que participa, perceberemos como adquire uma figura próxima da pop star, numa cultura que lhe é totalmente alheia. Em Macau, assistirá à estreia da primeira adaptação para teatro do seu romance “O filho de mil homens”.

Já a caminho da Colômbia, percebemos como, na narrativa do novo livro, a mãe de Halldora a rejeita, considerando-a a imagem insuportável de todo o mal. Pelo contrário, a relação
de Valter com a sua própria mãe é intensa, telefonando-lhe diariamente.

Na rádio, Hilmar ouve que o vulcão Atla se encontra à beira da erupção. Pensa na Islândia, na bancarrota do país e como tudo parece estar em derrocada.

Ambiciona o verão para que terminem estas duras 24 horas de noite, as tempestades de neve e a nuvem de cinza do vulcão que fechou o espaço aéreo europeu e não permite que ninguém possa sair e chegar à ilha. O tempo passa, o céu abre-se, o verão está a chegar e com ele os inúmeros casamentos que irá realizar.

Portugal é um dos países convidados da feira literária de Bogotá, e Valter um dos autores mais vendidos. No Brasil, irá encontrar-se com a sua nova amiga Laerte, que lhe dirá que a felicidade é um conceito tão abstrato como deus e que por isso ela nem a nomeia nem a procura.

Numa fila gigante de autógrafos, uma fã, ao pedir-lhe que assine o seu livro, dirá que ao terminar a leitura de “O Remorso de Baltazar Serapião” se ficou sentido como uma vaca. Sorri. Veremos Valter escrevendo, e qual será a surpresa quando descobrimos que escreve, na maioria das vezes, no seu telemóvel enquanto caminha. Pensa na pacatez da sua vila tão vital para a criação e no contraste do mundo que as suas obrigações profissionais lhe exigem.

E será através de fotos de telemóvel que tenta cristalizar todos os museus do mundo para um futuro livro de crônicas.

Novamente na Islândia, Valter tentará esclarecer as dúvidas que persistem. Se acreditam realmente nos monstros marinhos e se os Elfos vivem, por magia, debaixo de pedras. Na capital irá comprar a bibliografia e a banda sonora que considera necessárias para terminar o seu livro, mas, subitamente, encontra na rua Hilmar.

Ao longo das suas viagens solitárias a caminho das cerimônias, Hilmar parará o carro em frente a casa onde cresceu nos verões da sua infância e onde aprendeu a tocar órgão.

Olhará o mar e recordará as palavras do seu tio que lhe ensinou que dali até o polo sul nada mais há. Apenas um deserto de mar sem fim, sem terra à vista. Na cidade enquanto se abastece de cerveja, um desconhecido aproxima-se e diz-lhe ser seu fã. Um escritor português que diz se chamar Valter e lhe dedicou um livro. Hilmar sorri e promete que sim lhe irá escrever Trocam endereços e a partir daí irão começar a escrever-se regulamente.

Finalmente, Valter termina o seu livro que é unanimemente recebido com elogios pela crítica. Na cidade do Porto, na grande sala da Casa da Música, mais de mil pessoas assistem ansiosamente ao lançamento e aplaudem o trabalho do escritor.

Hilmar reúne-se com o arquiteto do templo que irão construir. Será o primeiro templo viking construído depois de mil anos. Riam-se ambos por todo o mundo desconhecer que foram eles e não os espanhóis que descobriram a América. Entretanto as suas filhas crescem e a mais velha, Solveig, finalmente está a aprender a conduzir. Chegou a hora de fazerem a viagem que sempre lhes prometeu rumo ao sul e às praias portuguesas. Aproveitará deste modo o convite do ilustre desconhecido que lhe dedicou um livro.

Sabe que a viagem terá de ser breve, pois, antes do verão terminar, terá de ir à Groenlândia dar um workshop com os indígenas locais. Nuuck, a capital já não lhe parece a mesma, mas a necessidade de apaziguar a solidão é a mesma. Por aqui dizem que todos nós temos um monstro dentro de nós que por vezes acorda e que a única forma de adormecê-lo é beber. Beber até adormecermos com ele.

Valter rumará a Lisboa onde irá aguardar a chegada de Hilmar e da sua família e onde irão definir o show de leitura do livro com música de Hilmar. Ao passear por Lisboa, falarão de história, de impérios perdidos e de como em moleque lhe chamavam preto apenas por ter vindo de Angola. Mais tarde, e nesse mesmo show, Valter e Hilmar decidem que o livro terá de ser necessariamente publicado na Islândia, onde tudo começou.

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Valter Hugo Mãe
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Valter Hugo Mãe

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Hilmar

Hilmar e Valter
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Hilmar e Valter

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Hilmar e Valter

Valter na Islândia
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Valter na Islândia

Valter na Islândia
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Valter na Islândia

Lerte e Valter Hugo Mãe
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Lerte e Valter Hugo Mãe

Da esquerda para direita: Hilmar, Valter Hugo Mãe, Pilar del Rio e Ragna (esposa de Hilmar)
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Da esquerda para direita: Hilmar, Valter Hugo Mãe, Pilar del Rio e Ragna (esposa de Hilmar)

Da esquerda para direita: Valter, Hilmar e Adolfo Canibal (ator/músico que fez leituras do texto de Valter no show em Braga)
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Da esquerda para direita: Valter, Hilmar e Adolfo Canibal (ator/músico que fez leituras do texto de Valter no show em Braga)

  • "O Sentido da Vida" é o nome do novo filme de Miguel Gonçalves Mendes ("José e Pilar") e também o que se procura entender com esta viagem de volta do mundo, cujo diário de bordo pretende ser este blogue. Um registo dos relatos, impressões e experiências vividas em cada uma das paragens desta aventura que teve início em Lisboa e irá terminar no Polo Sul.