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O músico Hilmar Örn Hilmarsson - um dos 7 arquétipos

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O músico islandês aceita participar no filme. Ironia do destino, Valter Hugo Mãe dedicara-lhe o seu mais recente romance.

Hilmar Örn Hilmarsson é outra das 7 personagens emblemáticas do filme.

Considerado o principal músico e compositor islandês da atualidade, ajudou a lançar mundialmente a carreira de artistas como Björk e Sigur Rós.

Paralelamente exerce sacerdócio e luta pelo reconhecimento da antiga religião viking, na sua vertente Ásatrú, enquanto prepara a construção, em Reiquiavique, do primeiro templo consagrado aos deuses nórdicos (pré-cristãos) em cerca de oitocentos anos. Por isso lhe chamam o último padre Viking do mundo.

Casado com a escritora Ragna Sigurðardóttir e pai de duas filhas, divide o seu tempo entre as actividades da igreja e as viagens pelo mundo consequência dos inúmeros convites que recebe para conceber bandas sonoras para cinema.

Partilhamos agora um dos diários de rodagem do realizador Miguel Gonçalves Mendes escrito durante a sua primeira viagem com Valter Hugo Mãe à Islândia.

NO CORPO DE DEUS

A Islândia é efetivamente a Boca de Deus e este seria o melhor titulo que o Valter podia ter encontrado para o seu livro. Tento convencê-lo disso, mas ele rejeita. Insiste que o romance se chamará A Desumanização. Recordo-me de ter ouvido a história de como Jorge Amado considerava que a sua família lhe tinha destruído a Dona Flor e os Seus Dois Maridos por opinarem demasiado. Por isso, desisto. Nada é mais dramático do que a escolha de um título. Ele comporta em si todas as possibilidades e limitações. Calculo que seja o mesmo que batizar uma criança. Continuo a não gostar do título do meu novo filme, O Sentido da Vida. E, se bem que se trata de um título devidamente roubado aos Monty Python, não deixa de tresandar a livro de autoajuda. The Meaning of Life não é o sentido da vida. Seria mais correto escolher "O significado da vida". No fundo, a questão primordial é essa.

Mais uma vez ao regressar, choro compulsivamente no avião. Dias melhores, dias piores, cansaço, felicidade, tudo é desculpa para temer a morte, que considero sempre iminente. Lá em baixo não se vislumbra terra. Apenas se deduz. A forma da nuvem gigantesca tem a semelhança e o tamanho da ilha. A Daniela (minha produtora) dá-me a mão. Diz que tudo vai correr bem e a verdade é que sempre corre. A Boca de Deus, que o Valter inventou, é necessariamente imperscrutável e, como tal, um retrato tão fiel da Islândia. A ilha é triste, inóspita, impossível de habitar e inacreditavelmente bela. Entrar em nevoeiro cerrado é o máximo de solidão que se poderá atingir. Não existe o outro, nem paisagem, nem coordenadas. Só a consciência da nossa própria solidão. Será talvez a experiência mais próxima da morte. E, sair... a de sobreviver.

O pânico da morte faz-me agora amar profundamente a vida. Nos últimos tempos qualquer viagem que viva, qualquer relação que tenha, me obriga a agradecer a um deus, no qual não acredito, a possibilidade de viver/experienciar cada momento. São três da manhã. Estou de óculos de sol. A luz branca fere os olhos, sobretudo quando refletida num glaciar. Será que as coisas só existem realmente quando as vivemos? Sete horas de viagem e chegamos aos Fiordes.

Não sou new age. Odeio a metafísica, mas juro que vivi o dia mais feliz da minha vida, num orgasmo constante, um orgasmo visual durante sete horas em que me foi dada a possibilidade de ver a paisagem mais extraordinária com que alguma vez me deparei, religiosa na sua majestade. Penso no privilégio que é a minha vida e na possibilidade de compartilhar este momento com a Daniela que amo, odiando. Com o Valter, que irei amar e odiar também por toda a vida. E percebo que a Islândia é não ter medo, é estar sentado no topo de um carro a filmar e não ter medo do abismo. É estar deitado num tanque de água quente, perdido na paisagem com temperaturas negativas. É perceber que tudo é maior de que nós e que pouco há que possamos fazer.

Apenas lutar e no final de cada uma das batalhas aceitar serenamente o nosso destino. O Hilmar [Örn Hilmarsson] aceita participar no filme. Ironia do destino, o Valter dedicara-lhe o romance. O Hilmar é um padre viking, mas é também o mentor e uma das causas da nova cena musical islandesa, profundamente ligado ao advento da Björk ou de uma banda como Sigur Rós.

Vista da torre da igreja, Reiquiavique parece uma cidade de bonecas, com os seus telhados multicolores. Uma Lisboa de outros tons. Na mesma escala, na mesma solidão e com a mesma necessidade de fuga.

Um povo feito para sair e para voltar quando percebe que é na paisagem que reside o mais intimo do seu eu. A paisagem é deus. A Islândia é "a boca de deus". Por essa razão penso novamento no quanto é foleiro o titulo do meu filme e de como em nada traduz aquilo de que quero falar: o Mundo, a beleza e o grotesco do mundo. A Dádiva e o Nojo. E, se a paisagem é deus e a Islândia a sua boca, então o mundo seria: o cu de deus. A possibilidade de um título.

* texto de Miguel Gonçalves Mendes originalmente publicado no Jornal de Letras

Cidade de Nuuk na Islândia
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Cidade de Nuuk na Islândia

Hilmar no cemitério
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Hilmar no cemitério

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Hilmar a realizar uma cerimónia de casamento
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Hilmar a realizar uma cerimónia de casamento

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Cerimónia de casamento
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Cerimónia de casamento

Durante uma cerimónia de casamento
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Durante uma cerimónia de casamento

Hilmar
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Hilmar

Hilmar
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Hilmar

As filhas de Hilmar
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As filhas de Hilmar

Hilmar em Lisboa, ao fundo, a Torre de Belém
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Hilmar em Lisboa, ao fundo, a Torre de Belém

Hilmar e a família perto da ponte 25 de Abril
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Hilmar e a família perto da ponte 25 de Abril

Hilmar em Lisboa
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Hilmar em Lisboa

Hilmar acompanhado da sua mulher, Ragna
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Hilmar acompanhado da sua mulher, Ragna

Hilmar em Lisboa
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Hilmar em Lisboa

Hilmar em Lisboa
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Hilmar em Lisboa

  • "O Sentido da Vida" é o nome do novo filme de Miguel Gonçalves Mendes ("José e Pilar") e também o que se procura entender com esta viagem de volta do mundo, cujo diário de bordo pretende ser este blogue. Um registo dos relatos, impressões e experiências vividas em cada uma das paragens desta aventura que teve início em Lisboa e irá terminar no Polo Sul.