Siga-nos

Perfil

Expresso

Íntima Fracção

Vinte sete anos depois

Onde conto os vinte e sete anos da Íntima Fracção, sentidos por mim. A edição sonora da IF será publicada no início da próxima semana.

<#comment comment="[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false MicrosoftInternetExplorer4 <#comment comment="[if gte mso 9]> <#comment comment="[if !mso]> <#comment comment="[if gte mso 10]>

ÍNTIMA FRACÇÃO.

Pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir.

 

A Íntima Fracção é, de base, um programa de rádio.

Penso que o fui desenhando durante muitos anos. Os esquissos terão demorado muito tempo a passar à fase dos esboços. Quando o desenho se libertou da folha, eu fiquei condenado a um trabalho eterno. Desenhar com os sons, a música, a voz que diz as palavras, é como esperar que os "traços luminosos que riscam a noite", ali fiquem. Não ficam. E é preciso repetir, tentar, redesenhar, abrir sempre novas clareiras de luz nas trevas que se querem impor. Resistir, portanto.

A Íntima Fracção foi para o ar, pela primeira vez, no dia 8 de Abril de 1984, na Antena 1 da RDP.

 

"Na nostalgia do nosso eu gigante reside a nossa bondade. E essa nostalgia existe em cada um de nós. Mas em alguns esta nostalgia é uma torrente que rola impetuosa em direcção ao mar, transportando os segredos das ladeiras das colinas e o cântico da floresta ;

e, noutros, é um ribeiro calmo que se perde pelos cantos e pelos meandros e que se espreguiça antes de chegar ao rio." (Khalil Gibran)

 

Uma Íntima Fracção da noite chega e espreita, como quem ouve, mas não quer ser ouvido a não ser através da voz dos outros.

E eu utilizei a voz dos outros. Era impossível não falar de mim, mas por pudor eu não podia falar por mim.

As pessoas diziam que "a minha voz é bela. Ela não é bela, a minha voz. Ela é justa. Não é falsa. E frequentemente as vozes são falsas, sobretudo as vozes dos actores." (Duras)

 

A Íntima Fracção pertenceu-me durante um tempo. Ela estava em mim. Julgo que muito depressa a perdi. Ou me perdi nela. Passei a estar na Íntima Fracção. Desenvolveu-se uma entidade própria, que todos partilhávamos. Eu e os ouvintes. Sem eu saber. Sem eu o saber, durante muito tempo.



" Os vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e filhas da nostalgia da vida por si mesma. Eles vêm por meio de vós mas não são de vós, e, apesar de estarem convosco, não vos pertencem." (Gibran)

 

Ao fim de alguns anos, mesmo antes do programa ter passado para a TSF em 1989, a Íntima Fracção era apenas um eco dos corações, das lágrimas e das esperanças dos seus ouvintes. Eu também era um deles. O impulso que me lançava nas noites íntimas, era o mesmo que me tinha feito radialista, desde há muito, como um longo ouvinte que se transformava em construtor de uma nova audição.

Que músicas ? Que textos ? Que silêncios, enfim ? Impossível contá-los. Yourcenar, Barthes, Pessoa ? Sim e todos os outros. Smiths, Cocteau Twins, This Mortal Coil ? Sim e todos os Nick Cave, Tindersticks, John Cale, a que se juntaram centenas de Lambchop, Labradford, Departure Lounge. Todos, todos os que correm os caminhos do coração.

 

"Há um traço azul no futuro incandescente". (João Wiborg)

Desde 1986 que este ser ermita e retirado, com o qual me encontrei uma única vez, me disponibilizou textos. Uns escritos de propósito para o programa, outros não, mas adequados. Esta colaboração foi fulcral para a IF, mas parou no início dos anos 90.

Em 1993, a Íntima Fracção passou a ser um programa diário entre a 1 e as 3 da madrugada, de segunda a sexta. Sempre se desenvolvera nas noites de sábado ou de domingo, apenas. Três anos depois regressou ao formato original, mais verdadeiro e possibilitando o que uma emissão diária não permite.

Iniciou-se uma época dourada. Sem qualquer interferência por parte da direcção da TSF, o programa conheceu o ambiente que sempre sonhara. Num pequeno estúdio próprio, longe dos estúdios da estação, das pessoas e de qualquer sobressalto, deslizou pelas noites.

Chegou o digital e a Íntima fracção desmaterializou-se. A sua execução passou a ser possível em qualquer lugar. Saltou do estúdio para o laptop e vagueou comigo entre o mar e a montanha, com um cão de guarda como companhia.

No terrível Verão de 2003, a IF foi rudemente interrompida na TSF. O final de Setembro marcou a suspensão. Novas direcções, outros (vazios) gostos. O 20º aniversário foi cumprido no exílio.

 

" Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida." (Sam Shepard)

 

Durante um ano, uma ou duas emissões na net e em Rádios Universitárias. Em Outubro de 2004, o regresso na RUC (Rádio Universidade de Coimbra) e, acima de tudo, a oferta do programa para download na net, através da ESEC Rádio Online. Em Dezembro de 2005, distribuída também por podcast, a Íntima Fracção liberta-se definitivamente do espaço geográfico. De Espanha à Suécia. Dos Estados Unidos a Macau. Do Brasil ao Kénia - lágrimas e esperanças riscam o escuro como se fossem cometas.

 

Em 2007 percorreu as noites do Rádio Clube Português, até que, em Abril de 2008, se refugiou no Expresso Online através do qual se distribui em podcast para o mundo inteiro. Uma nova aventura para mim e para o Expresso.

 

A foto que acompanha o texto é das mais antigas, captada durante uma emissão em directo.(@Paulo Abrantes)



" Não deixes o melhor para o fim, começa pelo melhor. Pode ser que o menos bom e o pior não cheguem a ter lugar." (Jörg)

 

 Francisco Amaral