Siga-nos

Perfil

Expresso

Nós não somos racistas, “preta de merda”

“Tu aqui não entras, preta de merda, queres apanhar um autocarro, apanhas no teu país”, terá dito o fiscal do autocarro da STCP antes de agredir violentamente Nicol, uma jovem portuguesa e colombiana.

A agressão de Nicol revela todavia mais que o miserável racismo do agressor (e sim, é preciso dizer racismo e não apenas “jovem agredida”, como aparece em alguns jornais). Destapa a complacência institucional com a discriminação e a impunidade com que atuam algumas pessoas que se abrigam na condição de “seguranças privados”.

Comecemos pela complacência da polícia. A PSP deslocou-se ao local, onde encontrou uma jovem espancada e desfigurada e um fiscal com as mãos ensanguentadas e com os pés na cara dela. Diz quem lá estava que foram tratados como duas partes iguais. A polícia presenciou uma situação de flagrante delito, definida no Código Penal como um crime, o que lhe permitia, desde logo, ter detido ali mesmo o atacante. Mas não. Pelo que dizem os jornais, o agressor nem sequer foi identificado. Mais: como confirmou o porta-voz da PSP, a polícia demorou três dias (três dias!) a fazer o auto da agressão. Não foram três horas. Foram três dias. Só quando o caso já era um episódio mediático é que a PSP teve tempo de fazer o que devia ter feito logo.

Em segundo lugar, a complacência da STCP. Pressionada pela imprensa, a empresa lá pôs o omnipresente Cunha Vaz (de uma consultora de comunicação) a dizer que a STCP tinha dado indicação para que o fiscal não exercesse aquelas funções “enquanto decorrer o processo interno de averiguações” por parte da empresa de segurança. E foi tudo. Assunto arrumado. A STCP põe em causa o contrato com a empresa de segurança privada com que trabalha? Não. Põe a hipótese de mudar este sistema de fiscais externos, voltando a internalizar essas funções? Não. Disse alguma coisa sobre o responsável da STCP que faz a formação e a ligação com os fiscais, uma pessoa conhecida dentro da empresa por ser violento e por ter abafado vários casos anteriores de violência dos fiscais? Não. Contactou a vítima? Não. Mudou alguma coisa? Não. E a Comissão de Trabalhadores? Alguma palavra? Até agora, nada.

Ao fim de três dias, o Governo, esse, disse uma palavra. “Na sequência das questões suscitadas hoje por vários partidos parlamentares, relativas a uma ocorrência envolvendo uma cidadã colombiana no Porto, o Ministério da Administração Interna informa que, através da Inspeção Geral da Administração Interna, foi aberto um processo administrativo, que visa o esclarecimento da situação junto da Polícia de Segurança Pública”, refere uma nota do Ministério. Um processo administrativo para “esclarecer” o que aconteceu com a “cidadã colombiana”... Mais vale tarde que nunca e mais vale alguma coisa que nada. Mas não basta averiguar, é preciso que haja consequências. E não seria mau que o Governo aproveitasse esta oportunidade para tirar da gaveta a proposta de lei sobre segurança privada, anunciada na sequência do caso Urban Beach, para regular um setor que é hoje marcado pela concorrência desleal entre empresas, salários baixos e violação dos direitos de dezenas de milhares de trabalhadores e impunidade perante mafias criminosas e racistas que procuram legitimar-se à sombra desta atividade.