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Expresso

Canábis: o preconceito faz mal à saúde

Os produtos que estão no canábis melhoram o bem-estar do doente, aumentam o apetite, potenciam imenso o efeito dos analgésicos”. Daí que, “numa doença muito avançada como o cancro, em tudo aquilo que for possível fazer para melhorar a qualidade de vida dos doentes, não há ilícitos”. As palavras já têm algum tempo: foram proferidas em 2014 pelo presidente do Conselho de Administração do IPO-Porto, o médico Laranja Pontes, em defesa do uso terapêutico da canábis, com base na sua experiência de acompanhamento dos doentes. Retomo-as porque o debate voltou a estar na ordem do dia, em Portugal e noutros países.

Nos Estados Unidos, são mais de duas dezenas os estados que legalizaram o uso terapêutico da canábis. No Canadá o auto-cultivo foi autorizado, bem como a venda a 60 mil doentes. Na Alemanha, no passado mês de março, a legalização para uso medicinal, comparticipado pelo Estado, entrou em vigor para doentes cujos sintomas não possam ser aliviados por outros medicamentos. O ministro da Saúde alemão, o conservador Hermann Groehe, afirmou então, em justificação da medida, que “os doentes graves têm de ser tratados da melhor forma possível”. Em Itália, 12 das 20 regiões autorizam o uso terapêutico em algumas doenças. Em Portugal, está a ser estudada legislação nesse sentido, depois de também a Ordem dos Médicos ter manifestado o interesse em fazer este debate. No Parlamento Europeu, aconteceu esta semana um encontro que juntou responsáveis belgas, espanhóis, portugueses, irlandeses, holandeses e italianos para partilhar experiências e projetos em curso.

Seja através dos medicamentos autorizados, seja por via do consumo da planta nas suas várias formas (óleos, vaporização, inalação...), a autorização da utilização de canábis tem aumentado em todo o mundo e não por acaso. A canábis é, de facto, uma das plantas mais estudadas no que respeita ao seu uso terapêutico, havendo mais de 22 mil estudos e investigações publicadas no repositório oficial de investigação científica norte-americana PubMed Central, metade dos quais elaborados nos últimos dez ano. As mudanças legislativas têm pois acompanhado o conhecimento científico, que reconhece os benefícios da canábis no tratamento de dores crónicas, no controlo dos efeitos negativos de determinados tratamentos (como os relacionados com o cancro) ou o efeito positivo que tem no tratamento de doenças como o Alzheimer, a Esclerose Lateral Amiotrófica, Glaucoma, Esclerose Múltipla, Artrite Reumatóide, entre outras.

Em Portugal, o movimento que vem defendendo a regulação da produção e do consumo da canábis volta a manifestar-se neste fim de semana. Da sua agenda têm feito parte não apenas as questões da utilização terapêutica, mas também de um modelo geral capaz de desclandestinizar os consumos para poder promover a informação e capaz de regular a produção para poder garantir a qualidade do que se consome, acautelando a saúde pública posta em causa quando as substâncias que circulam não têm qualquer tipo de controlo e são sujeitas a todas as manipulações.

Portugal, que em 2001 deu um passo de gigante quando aprovou um modelo de descriminalização que se tornou um exemplo mundial, devia acompanhar este movimento. O princípio é simples: pôr a responsabilidade, a escolha informada e o conhecimento à frente do preconceito.