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Expresso

Almaraz? Não, obrigado.

A questão da central nuclear de Almaraz está a criar um incidente diplomático, mas é bem mais grave que isso. É um problema de segurança e de saúde pública dos dois lados da fronteira.

É um problema diplomático porque a atitude do governo espanhol foi hostil. Ignorou a obrigação de dialogar com Portugal e está a furtar-se a fazer o estudo de impacto transfronteirço e a evitar a consulta pública que tem de existir nos dois países. Por isso, a queixa a Bruxelas é certa, mas o governo português deixou arrastar o processo e já atuou tarde.

Mas é sobretudo um problema de saúde pública e de segurança das populações. Comoaqui escrevi em junho, quando houve uma manifestação pelo encerramento de Almaraz, a central foi construída há 35 anos e já teve dezenas de incidentes. Tem os reatores nucleares mais velhos do Estado espanhol e o sistema de refrigeração não dá garantias de segurança. Devia ter sido fechada em 2010 e não foi. O governo espanhol decidiu prolongar o seu funcionamento até 2020. Mas agora, com a intenção de construir o aterro de lixo nuclear, percebe-se que o plano é ir além e arrastar ainda mais tempo (até 2030?) uma central que, objetivamente, não é fiável. Prolongar o funcionamento da central só se compreende tendo em conta a submissão a interesses privados poderosos, nomeadamente da Iberdrola, da Endesa e da Union Fenosa, empresas a quem Almaraz está concessionada.

Não é pois aceitável que se procure atalhar o debate invocando que se trata de uma opção de política energética do estado espanhol. Com uma central situada a 100 quilómetros do nosso país, se houver uma catástrofe, ela não para na fronteira. Além do mais, a própria construção do aterro tem já consequências para Portugal, nomeadamente por causa da contaminação das águas do rio Tejo.

Perante isto, as autoridades portuguesas têm de atuar em pelo menos duas frentes.

A primeira é a da prevenção. Ao longo das últimas décadas, nunca os governos portugueses levaram a sério a questão de Almaraz. Como se explica que em 2017 ainda não haja nenhum programa de emergência nem um plano estratégico de proteção civil para responder ao risco de um acidente radiológico?

A segunda é a da atuação à escala internacional para que a central deixe de funcionar. Amobilização que tem existido tem sido essencial. Mas o próprio Parlamento já se pronunciou sobre o assunto e foram aprovadas, em abril do ano passado, duas resoluções que comprometem o Governo a exigir o encerramento . É preciso que aja em conformidade. Almaraz é uma bomba-relógio e só há uma resposta responsável perante o perigo iminente: fechar a central.