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Expresso

Do respeito

Eu, Daniel Blake, é um filme que nos toca e que nos diz respeito. Sim, é sobre o pesadelo concreto de um carpinteiro de 59 anos que vive em Inglaterra e que sofre no labirinto burocrático de um Estado cada vez menos social. Sim, é sobre a sua amiga Katie, mãe sozinha e com dois filhos, posta entre a espada e a parede do desemprego e da fome. Mas é também sobre nós. Por muitas razões.

Está lá o cinismo de um sistema que faz exigências impossíveis e que obriga os desempregados a fazerem prova de procura de empregos que todos sabem não existir. Está lá a linha telefónica na qual se espera horas ao som de uma música clássica em loop, para se obter uma resposta burocrática. Está lá o trabalho de Sísifo dos formulários online e do controlo dos pobres. Está lá a bondade e a humilhação dos bancos alimentares, o socorro e o estigma da caridade. Está lá o pior da insensibilidade burocrática e quem, por resistência, tenta ser pessoa. Está lá a desfaçatez de uma linguagem de ativação que, na prática, culpabiliza e só pode produzir desistência. Está lá a farsa das formações obrigatórias para desempregados, que parecem feitas para a estatística ou para os entreter retirando-os das estatísticas. Está lá o desespero dos trabalhos precários e mal-pagos e a esperança de um esquema que dê para viver nas margens da economia informal. Está lá a aflição e a grandeza dos pequenos gestos de solidariedade. Está lá a raiva contida e a impotência, a revolta e a dignidade.

Dos pobres e dos desempregados, é sabido, fala-se muito: na televisão, nos jornais e no discurso político. Muitas vezes com preconceito e desprezo (como se fossem "malandros" ou "subsidio-dependentes") outras como objeto de comiseração (os "bons pobres" que merecem os "bons sentimentos" dos outros, os que não são pobres). Mas não é por serem falados que têm voz: raramente falam eles próprios. Também por isso este filme é um feito. É direto e bruto sobre a dignidade humana, na pele e a partir da experiência de quem sofre.

Que muitos de nós possam reconhecer-se na história, ou reconhecer o sistema, não é nenhuma coincidência. Na verdade, só os detalhes são diferentes. Cá ou lá, a lógica de fundo - e a política que a produziu - é a mesma. O "direito ao emprego" (responsabilidade coletiva da política económica) substituído pela "promoção da empregabilidade" (isto é, a intervenção sobre as disposições dos indivíduos), os diretos de cidadania substituídos por prestações condicionais (sujeitas a contrapartidas que muitas vezes se convertem em humilhações ou missões impossíveis), a responsabilidade pública substituída pela responsabilização individual e pela indústria da caridade, o atendimento humano e personalizado substituído pelo labirinto da burocracia online e do call center terceirizado.

Este filme é portanto, e talvez essencialmente, sobre o respeito. Não falo do verniz, mas do que olha olhos nos olhos e é a sério. O respeito que resulta de direitos, de dignidade, o respeito que toma a igualdade como um pressuposto no modo como nos relacionamos (e não só como retórica e objetivo) e também, e em consequência disso, do respeito que toma a igualdade como uma política. Respeito no sentido original da palavra: o direito a ser visto.

Na realidade, de que se trata, se não de falta de respeito, quando falamos dos milhares de cidadãos que trabalham no nosso país e que são condenados à pobreza, e a quem alguns dizem que 557 euros por mês é um exagero? De que trata, se não de respeito, quando falamos de centenas de milhares de desempregados, quantos deles humilhados quotidianamente na sua condição, ofendidos na sua dignidade por exigências e procedimentos burocráticos do Estado que são uma farsa?

Sim, é sobre nós. Quanto nos indignamos com esta falta de respeito contra as pessoas comuns? Quem se levanta por elas?