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Expresso

Brasil: tanto passado pela frente

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Muitos conhecem a música, mas nem todos conhecerão a história. Estávamos em meados da década de 1970 e a ditadura brasileira teria ainda uma década de vida pela frente. Augusto Boal, teatrólogo brasileiro, estava exilado em Lisboa e contava-se entre os muitos perseguidos por um regime que, desde 1964, por via de um golpe militar que derrubou um Governo eleito, suprimiu as liberdades civis, aniquilou a independência de poderes (nomeadamente o judicial), dissolveu o Parlamento, prendeu e torturou pessoas.

Boal, como tantos outros, ansiava por notícias do seu país. Nesse dia, elas chegaram por via de uma “carta” enviada pelo seu amigo Chico Buarque, que trazia as “novidades”. A “carta” era uma canção em forma epistolar, “Meu caro amigo”, composta por Chico e Francis Hime. A situação era tudo menos animadora. “O que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”, resumia Chico no refrão. A ditadura continuava a exibir-se com o seu cortejo de horrores e de repressão, apoiada pelas elites económicas e militares. E no entanto, ouve-se a música, e sente-se nela não o desespero, mas essa resistência que enfrenta o sofrimento. "Falávamos tristezas, e ouvimos um canto de esperança”, conta Boal sobre o jantar em que, com outros amigos exilados, ouviram a fita na casa do Campo Pequeno.

Dirão alguns que exagero ao trazer esta memória para os dias de hoje. Reconheço que os golpes de hoje não se fazem necessariamente à força do fuzil e da violência explícita de então e que recorrem à retórica jurídica e a pretextos constitucionais que possam dotá-los de uma aparente legitimidade. Mas como nomear o processo de usurpação do poder que esta semana se consumou no Brasil se não chamando-lhe o que ele é, ou seja, um golpe?

Não vale a pena repetir a inconsistência dos argumentos jurídicos utilizados pelos golpistas, o embuste das acusações de supostos “crimes de responsabilidade” de Dilma que não existem, nem lembrar os episódios rocambolescos de uma triste novela que envolveu conspirações de corruptos para escaparem à justiça, os ressentimentos de quem perdeu as eleições e nunca se conformou ou o deprimente espetáculo no Congresso Nacional, que envergonhou toda a gente que a ele assistiu. O processo do impeachment da presidenta eleita, cuja intervenção no Senado é uma peça de grandeza e dignidade, é uma farsa montada por uma elite suja, que juntou apoiantes da tortura e saudosos da ditadura militar, elites económicas que querem fazer recair a conta da crise financeira sobre as classes trabalhadoras, escravocratas e racistas ofendidos com os tímidos passos dados no combate à discriminação (no acesso à escola e à universidade, à habitação, à mobilidade), machistas desesperados com o facto de haver uma mulher à frente do país, conservadores desbragados e fundamentalistas religiosos.

Em causa está muito mais que o balanço da era PT no Brasil. São evidentes e incontestáveis os avanços conseguidos em algumas áreas, particularmente no que diz respeito à população mais miserável do país. Não são de hoje, também, as opiniões críticas de quem apontou ao PT a sua acomodação à estrutura da desigualdade e ao modelo de desenvolvimento, o conformismo em relação a reformas urgentes (do sistema político e mediático, mas também na reforma agrária ou outras), as alianças contranatura ou os esquemas para manter o poder. Mas o que neste processo se joga é mesmo a democracia.

O governo Temer é ridículo. Mas é perigoso. É certo que haverá sempre a Globo e, aqui e ali, como na política e na imprensa portuguesa, um ou outro cão de guarda para defendê-lo ou tentar torná-lo minimamente apresentável. Gabo-lhes o esforço, mas é missão impossível. Um governo constituído por bandidos e conspiradores (nalguns casos, acumulando as duas características), onde houve a franqueza de não colocar ninguém que não pertencesse à elite económica, masculina e branca, mostra bem o Brasil que se pretende defender e representar. O programa anunciado e as políticas já colocadas em prática também. São justamente as que foram rejeitadas nas eleições: retrocesso nas políticas sociais, fundamentalismo contra a pluralidade de valores e crenças, intolerância contra as minorias, suspensão por duas décadas no investimento em educação e saúde, regresso às 60 horas de trabalho semanal, repressão da opinião divergente (a proibição de cartazes que contivessem “Fora Temer” durante os Jogos Olímpicos é só uma amostra do que aí vem).

No Brasil, o que esta semana aconteceu foi deitar ao lixo 54 milhões de votos e roubar ao povo a democracia e decisões que só ao povo poderiam caber. Sim, é golpe e não há como não ver.

Não nos venham pois com os costumeiros argumentos de que não sabemos tudo, de que tomar posição é “ingerência” externa, de que não nos cabe pronunciarmo-nos. Na realidade, não temos como não fazê-lo. Aos meus caros amigos e amigas brasileiras que estão nas ruas e que resistem, devo toda a minha solidariedade. Como comunidade, também temos uma palavra a dizer. Na sequência do impeachment, houve países que decidiram oficialmente não reconhecer como legítimo o governo resultante do golpe. Seria bom que, também por gestos concretos, fizéssemos saber que Portugal, um pequeno país que se orgulha de ter feito uma revolução democrática, está com quem no Brasil não quer que se regresse ao passado. Isto é: com quem, em condições adversas, continua a lutar pela democracia.