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Expresso

Aqui tão perto

A farsa brasileira

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No Brasil, um político corrupto e não eleito assumiu a presidência. Nas sondagens, tem 2% das intenções de voto. Mas o voto não importa. Para Temer açambarcar o poder não foi preciso fazer eleições. Bastou manobrar para afastar uma Presidente eleita por 54 milhões de pessoas.

O que se passa tem causado o espanto da imprensa internacional. Um conjunto de políticos acusados de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal destituíram, em nome do combate à corrupção (e em nome das suas esposas, filhos, de deus, dos corretores e até de torturadores...) uma presidente que não tem nenhuma acusação de corrupção. Não tem lógica? Não. Nenhuma. Mas a lógica também não conta.

O governo de Temer é um hino ao absurdo. Tem sete ministros acusados no escândalo de corrupção Lava Jato. Conseguiu a proeza de não ter nenhuma mulher – para esta gente a política não é certamente atividade para senhoras, mais talhadas que são para primeiras-damas, sobretudo se forem “belas, recatadas e do lar”, como é descrita, na imprensa, a esposa do presidente.

Temer aboliu o Ministério da Cultura (toda a gente sabe que os artistas são uns arruaceiros), extinguiu a secretaria de igualdade racial, de género, das mulheres e a dos direitos humanos. Percebe-se: acaso alguns destes assuntos é relevante num país como o Brasil? Para Temer, seguramente que não. Além disso, essa gente preta e pobre e da periferia já tem no novo Estado quem se ocupe deles: a polícia militar.

Para a Justiça, Temer escolheu o comandante do “cacetaço” contra os estudantes de secundário de São Paulo. Nas suas primeiras entrevistas, Alexandre Moraes já deu o tom do mandato: Diz o Ministro que “nenhum direito é absoluto”, nomeadamente o de manifestação, já que “as pessoas precisam trabalhar, se locomover, o país precisa funcionar”. Na Saúde, o timbre é o mesmo. Para o novo Ministro, Ricardo Barros, o país “não conseguirá mais sustentar os direitos que a Constituição garante”, como o acesso universal à saúde e “será preciso repensá-los”. Ou seja, preparem-se. O pior ainda está para vir.

Para o Ministério da Ciência, Temer teve a ideia genial de nomear um pastor criacionista da Igreja Universal do Reino de Deus. A hipótese suscitou reação da comunidade científica e o problema teve solução fácil: acabou-se com o Ministério, que foi incorporado no das Comunicações. O pastor, que já era ministro de Deus, foi para ministro do Desenvolvimento.

Quanto mais se sabe, mais atónito se fica. E se é verdade que algumas notícias dão até vontade de rir, o problema é que nada disto é uma piada. É mesmo um golpe.

Claro que a história não está escrita até ao fim. No Brasil tem havido manifestações diárias contra o golpe e contra um Governo ilegítimo. Continua a ocupação de dezenas de escolas, com debates e aulas livres dadas pelos alunos ou por pessoas solidárias.

Várias delegações do Ministério da Cultura (entretanto extinto) estão ocupadas por artistas desde o início da semana. Depois de Arnaldo Antunes e outros, nos próximos dias Caetano e Seu Jorge juntam-se às ocupações com um concerto. Em Cannes, os realizadores e atores brasileiros denunciaram o golpe num protesto com grande repercussão. Na frente diplomática, multiplicam-se as declarações de países, sobretudo da América Latina, que não reconhecem o novo governo brasileiro.

Por cá, também tem havido solidariedade. Hoje mesmo, um ato no Tivoli junta “Portugueses pela Democracia”, desafiados pelo ator Gregorio Duvivier. No próximo dia 26 de maio, o gesto repete-se no Porto. Na realidade, alguém consegue levar a sério este governo brasileiro? Pela minha parte, não pretendo fazê-lo. Junto-me aos que contestam o golpe. Não é momento de ser cúmplice.