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Expresso

Marisa

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Poderá ser uma surpresa, mas não é um acaso. A campanha da Marisa Matias tem crescido como nenhuma, com apoios a multiplicarem-se espontaneamente de dia para dia, vindos de gente de muitos ofícios e ideias diferentes. A força desta candidata, que quando as sondagens foram feitas estava a ultrapassar Maria de Belém, vai decidir uma segunda volta. Quem tenha achado que esta era uma candidatura para marcar presença, já sentiu que há nela qualquer coisa de extraordinário, de novo, de esperança, de urgente, de coragem. Tudo está em aberto.

Marisa contrasta com a política-marcelo, feita de intriga, conspiração e sobretudo do tudo-e-o-seu-contrário. Marcelo-candidato contradiz Marcelo-comentador que contradiz Marcelo, ponto. Mas contrasta também com as outras candidaturas. Para quem está farto do vazio, da vaidade, dos rodeios, da pompa-e-circunstância, de privilégios, de benesses, de generalidades bacocas ou de cheques em branco, Marisa é a nova política contra a política velha. Marisa diz o que sente e pensa o que diz. É genuína e põe o dedo na ferida. Que bom seria ter uma presidente assim.

Em questões essenciais, como a atitude sobre o Orçamento retificativo com a fatura do Banif, Marisa foi a única que teve o bom senso suficiente para dizer o que todos sentimos: depois de cinco resgastes, outra vez não. Que bom seria ter uma presidente que, em nome do país, não se limitasse a baixar a cabeça perante Bruxelas e devolvesse o debate ao parlamento para viabilizar a solução preferida pelo governo e pela maioria - a integração na Caixa Geral de Depósitos. Mas só Marisa o disse, sem cálculos, quando perguntada. O que seria da campanha sem ela?

É certo que há características que já conhecíamos. Por exemplo, que para Marisa nunca houve “lá fora”. Nos últimos anos, a Marisa esteve na Palestina e no Líbano, esteve com os emigrantes portugueses escravizados na Holanda ou com os refugiados humilhados nos campos improvisados nas fronteiras da Europa. Negociou com Governos europeus a aprovação de diretivas da sua autoria, como a dos medicamentos falsificados, e esteve em Portugal com quem resistiu à austeridade. Marisa está em Bruxelas como está em Lisboa, está em Beirute como está em Alcouce, a aldeia onde nasceu e cresceu. Está onde haja sofrimento e luta. Nenhum lugar lhe é estranho.

A campanha invulgar de Marisa revelou por isso uma coisa a que estamos pouco habituados. Para ela, a política não é um biombo, uma encenação ou a repetição de um guião – é uma forma de cuidado com os outros. Isso sente-se e não dá para fingir. Por isso tem tanta força. Que bom seria termos uma presidente assim.