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Expresso

Cavaco, o fim da linha

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Começou com um discurso de claque para empossar um Governo de seu gosto, mesmo que rejeitado nas urnas pela maioria dos portugueses. Depois do anunciado chumbo no Parlamento, veio a birra, que se prolongou por mês e meio: afinal não havia pressa e tudo podia esperar. Portugal tinha todo o tempo do mundo para os caprichos presidenciais.

Cavaco ameaçou com a subida dos juros e o pânico da Europa – e afinal não houve nada. Reuniu com banqueiros e chamou os afeiçoados ao Palácio – e foi só ressabiamento e um chefe de Estado feito líder da oposição. Impotente, sobrou-lhe a pequenez no momento da “indicação”. E finalmente, em contraste com o país que respira de alívio, acabou ontem vencido, a dar posse em contragosto ao único Governo compatível com a nova maioria que saiu das eleições. Não sem amuos, recados e ameaças. Assim é Cavaco, o presidente dos 38%.

Mas foi só isto que se passou durante estes 53 dias? Sejamos justos: não foi. Com um mês e meio de mandato, a Direita foi incansável e meteu mãos à obra. Mesmo demitida pelo Parlamento, não desistiu de dar o seu melhor: nomeou uma centena de pessoas para altos cargos da Administração Pública, minou a decisão futura sobre taxas moderadoras nos Serviços de Atendimento Permanente, desceu de 35% para o% a anunciada devolução da sobretaxa de IRS, porque tradições são tradições e não era agora que o PSD e o CDS iam cumprir uma promessa eleitoral. Inesgotáveis na sua dedicação, os ministros já demitidos tiveram ainda tempo para a cereja no topo do bolo: a venda da TAP num negócio apressado e obsceno, que em qualquer país democrático seria considerado um golpe. Ontem Cavaco não se esqueceu de tamanho empenho do seu Governo. Agradeceu a Passos e a Portas “os serviços prestados ao país” e chamou a isto “a gestão dos negócios públicos”. Que sentido de Estado!

No entretanto, a nova maioria que saiu das eleições mostrou que nem tudo na política portuguesa é pequenino e mesquinho. No Parlamento, repôs-se o respeito pela autonomia das mulheres e pelas suas escolhas relativamente à interrupção voluntária da gravidez. Defendeu-se o interesse das crianças, acabando com a sobreposição do preconceito aos valores das famílias que existem e que podem acolhê-las. E hoje, num só dia, a nova maioria alargará o acesso às técnicas de procriação medicamente assistida, independentemente do estado civil ou da orientação sexual; acabará com os exames no primeiro ciclo; com o desrespeito inconstitucional que é a prova dos professores; e anulará a concessão a privados dos transportes públicos do Porto e de Lisboa, uma negociata que mereceu desde sempre a oposição de utentes, autarcas e trabalhadores.

Como se vê, Portugal não tem só um novo Governo. Tem uma nova maioria e uma esperança legítima de que as coisas mudem, porque já estão a mudar. Felizmente o país não é Cavaco.