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Expresso

Três razões em favor do compromisso

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Será tornado público nos próximos dias o resultado das negociações que têm existido entre o PS, o Bloco e a CDU. A possibilidade concreta de uma alternativa tem hoje força, raízes firmes e é sentida por milhões de pessoas. Por várias razões.

A primeira é a necessidade de respirar de novo

Para quem sofreu com a austeridade nos últimos anos, perdeu salário e parte das suas pensões, viu os rendimentos minguar, se debateu com encerramentos de serviços públicos e assistiu a negociatas que foram vendendo o país aos privados, para quem se viu forçado a emigrar ou andou a penar em estágios e trabalhos temporários, a possibilidade de romper este ciclo de empobrecimento é a garantia de que a vida não tem de ser sempre a perder. Para quem tem assistido às nomeações de última hora, às declarações dos ministros nos últimos dias, às garantias de que os cortes são para continuar ao mesmo tempo que se mantêm os privilégios, vermo-nos livres disto, e rápido, é uma condição para se poder respirar de novo.

A segunda razão é a vida e ter condições para vivê-la

A solução que tem vindo a ser negociada não será nenhum milagre. Não será o que o Bloco faria se fosse governo. Não será o que a CDU faria se fosse Governo. E será diferente, para melhor, do que o PS faria se fosse Governo sozinho. Resulta da aproximação de posições com um objetivo básico: recuperar rendimentos e o valor do salário, descongelar pensões, inverter a precarização do trabalho, proteger os serviços públicos e anular as concessões aos privados. É um pequeno passo? Sim. Mas é um pequeno passo de gigante. Hoje, o peso da Esquerda é capaz de condicionar o centro. E isso significa uma coisa simples: dentro de constrangimentos europeus que devem ser debatidos e criticados, a possibilidade de inverter a distribuição de riqueza a favor de quem trabalha e de quem é pobre é já virar a austeridade ao contrário. Depois de décadas em que o centro foi o seguro de vida da direita – ou seja, o ventríloquo das suas soluções – a Esquerda é garantia de emprego, salários e pensões.

A terceira razão é a esperança

Ter uma maioria no Parlamento não é necessariamente ter o poder. Olhemos à nossa volta: uma parte significativa dos poderes que mandam não se sujeitam a eleições. As instituições europeias e as agências de rating, o sistema financeiro e os donos disto tudo, os comentadores que moldam a opinião e nos dizem o que pensar – nenhum desses poderes é eleito, mas cada um à sua maneira dita regras, usa da chantagem e procura conformar-nos ao que existe. Hoje, a possibilidade de uma maioria política que os desafie é a abertura de uma brecha. Abri-la é impedir a continuação do mesmo – e o peso da desmoralização que isso necessariamente acarretaria. Também por isso, abrir esta brecha é um convite à ação, muito para além dos partidos.

Os melhores momentos das esquerdas políticas e sociais sempre resultaram da capacidade de combinar três ingredientes: soluções concretas para agora; experiências de produção e de vida em comum que se subtraem à lógica sem regras do mercado e da competição; e a luta por uma ordem social diferente da que existe. Um Governo alternativo não fará isso tudo. Mas mostrará que não estamos condenados a sofrer com o presente em vez de transformá-lo. Para quem acha que a emancipação é uma prática concreta, aí está uma razão funda que o coração conhece.