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Expresso

A ameaça de um sequestro

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Cavaco tem toda a legitimidade para indigitar Passos Coelho como primeiro ministro. É claro que isso contraria as condições que o próprio estabeleceu para dar posse a um governo: que fosse “estável e duradouro”. Um governo da Direita destinado a durar uma semana e a ser chumbado no Parlamento é tudo menos “estável e duradouro”. Mas o presidente tem legitimidade para fazer durar a encenação mais uns dias.

Cavaco tem ainda razão noutro ponto do seu discurso: é ao Parlamento e aos deputados que cabe, em consciência, apreciar o programa de Governo. Ou seja, não lhe cabe a si. A intervenção de Cavaco foi por isso boa para um líder de claque. Decididamente, não é uma intervenção de um Presidente da República.

O discurso presidencial foi, na verdade, um insulto à democracia. Cavaco andou uma semana a apelar ao compromisso e ao diálogo, mas falou ao país de fantasmas e fez uma "declaração de guerra". Em resumo, o voto de um milhão de pessoas do nosso país não conta: a CDU e o Bloco de Esquerda seriam uma espécie de excrescência da democracia, vedados do direito de fazer parte de qualquer solução governativa. Porquê? Porque Cavaco não gosta. Além disso, os mercados talvez se apoquentem e a Europa não deve apreciar gente desta nos seus salões. A Europa é, na boca de Cavaco, um argumento contra a democracia.

A intervenção presidencial foi ainda mais longe. Cavaco diz que “tudo fará” para impedir soluções que dêem “sinais errados” àqueles que, não votando, devem mandar: “as instituições financeiras, os investidores e os mercados”. Percebe-se a insinuação: o Presidente não dará posse a um Governo chefiado por Costa, mesmo que este tenha o apoio da maioria dos deputados que o povo elegeu. Ou seja, o povo que se lixe. O que Cavaco anunciou foi um sequestro da democracia.

A mensagem desesperada de Cavaco não foi um discurso presidencial: é o testemunho de uma direita em pânico por perder o poder. Mas teve um mérito. Onde antes houvesse divisões, Cavaco parece ter unificado. Os efeitos de um discurso tão desvairadamente sectário podem afinal acabar por virar-se contra o feiticeiro. Quem apostou na existência de deputados trânsfugas que permitissem aprovar um Governo da Direita, pode puxar da cadeira. Depois desta mensagem, rejeitar o governo de Passos e Portas não é apenas uma escolha de quem acha que é preciso fazer valer a maioria de esquerda. É uma questão básica de democracia e de liberdade.