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Expresso

E agora, PS?

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O tempo é de indeterminação. A direita não tem maioria, PSD e CDS perderam 700 mil votos e estão em minoria no país e no Parlamento. Ou seja, é possível uma alternativa. Mas como? A chave do problema está na mão do PS.

1. Quando António Costa pediu na Comissão Política do PS um mandato para reunir, no mesmo plano, com a coligação de direita e com os partidos da Esquerda, deu um sinal. Por um lado, que estava interessado em aprofundar o diálogo com a Direita. Por outro lado, que estava interessado em aprofundar o diálogo com a Esquerda. Ainda não é uma escolha. Mas já é uma novidade.

2. A declaração de Jerónimo na sequência da reunião com o PS é muito importante. A CDU tornou claro que viabilizará um Governo do PS, mesmo que o PS mantenha o seu programa, com o qual a CDU discorda. Ou seja, neste momento, o PS só não formará o seu governo se não quiser. Mas disse mais: que estaria disponível a integrar um Governo de Esquerda se o PS revisse algumas das suas propostas, nomeadamente quanto ao “controlo público de sectores estratégicos” e à “indispensável renegociação da dívida”.

3. O Bloco também já disse o que pensa. Que a Direita não deve formar governo – ou seja, que o Bloco, aliás como a CDU, viabilizará a proposta de um Governo do PS. Mas disse mais: que está disponível para que a Esquerda elabore um programa comum capaz de salvar o país, caso o PS abdique de diminuir as pensões pelo seu congelamento, de flexibilizar o despedimento por via do “regime conciliatório” e de descapitalizar a Segurança Social por via da redução da Taxa Social Única.

4. Se outra coisa não resultasse destes últimos dias, há pelo menos duas que são já certezas importantes. A primeira é que não é inevitável que, com um parlamento maioritariamente à Esquerda, seja a Direita a formar governo. A segunda é que o discurso sobre o “voto útil” à Esquerda, se já fazia pouco sentido, morreu definitivamente a partir de agora.

5. A solução de um governo ancorado numa maioria parlamentar de Esquerda tem já os seus opositores declarados. A Comissão Europeia e o Governo Alemão. Cavaco Silva, que está a fazer tudo para que a Direita forme um Governo com o apoio parlamentar do PS e que até agitou o fantasma da NATO e do euro para sugerir que a Esquerda não podia sequer conversar. Mas também vários dirigentes do PS. Vera Jardim declarou que o PS só pode dialogar com PSD e CDS. João Proença, o ex-líder da UGT, que diz hoje nos jornais que o PS deve rejeitar quaisquer “entendimentos de cariz governamental” com a Esquerda. Os comentadores de direita, esses, agitam-se em pânico e lembram a nacionalização da Banca em 1975.

6. Nos últimos anos, a social-democracia foi-se descaracterizando, aceitando que a Direita determinasse a única política admissível e eternizando, por essa via, a ordem liberal. Margaret Thatcher resumiu essa conversão da social-democracia ao neoliberalismo de forma lapidar, quando lhe perguntaram, já no final da sua vida, qual tinha sido o seu maior sucesso enquanto dirigente política – “o New Labour” de Tony Blair, terá respondido. No PS foi igual. Acontece que entretanto o mundo não parou de girar. Veja-se o que aconteceu na Grécia, onde o Pasok colapsou e a sua hegemonia foi substituída por um novo partido contra a austeridade, o único que até hoje, no Governo, ousou desafiar as imposições europeias e a chantagem financeira. Ou o que aconteceu no Reino Unido, com a surpreendente e promissora eleição de um socialista, Jeremy Corbyn, para a liderança de um partido socialista, coisa inédita de há várias décadas para cá.

7. O PS está diante de uma escolha determinante. Pode rejeitar um Governo da Direita e decidir ser parte de uma solução alternativa, que passe por defender pensões, emprego e salários, desafiando assim a austeridade que se tornou a regra europeia. E, independentemente da forma concreta que pudesse tomar um futuro Governo, pode fazer valer a maioria de esquerda que já existe no Parlamento – e que não faltará para devolver salários e pensões, proteger os desempregados, combater a precariedade, anular as concessões dos transportes aos privados, aumentar o salário mínimo, robustecer a Segurança Social e os serviços públicos ou revogar os recuos que houve em matéria de aborto e direitos civis. Oxalá os interesses não falem mais alto e tenha a audácia de fazê-lo. Será capaz?