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Expresso

Continua quase tudo por fazer

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Neste sábado, o extraordinário movimento de solidariedade que se levantou em todo o mundo para dar as boas vindas aos refugiados sairá à rua, incluindo em várias cidades portuguesas. Numa Europa que já viveu a guerra e que já teve 6 milhões de refugiados, não se trata apenas de uma lição de solidariedade: é também uma exercício básico de memória. E no entanto, continua quase tudo por fazer.

O plano proposto pelo presidente da Comissão Europeia, apresentado como um exemplo de generosidade, é demasiado curto para poder ser uma solução.

Em primeiro lugar, como salientou Jorge Sampaio, porque acolher 160 mil pessoas significa tratar apenas de uma gota de água: só a guerra na Síria já provocou mais de 4 milhões de refugiados daquele país, 95% dos quais se encontram nos países árabes – como o Líbano (onde um quarto da população é refugiada), a Jordânia, o Iraque e o Egito – ou na Turquia.

Em segundo lugar porque a violência contra quem foge da guerra e da morte continua e agrava-se. Na Hungria, milhares de refugiados que vêm da Síria são tratados como animais, concentrados em campos de detenção sem comida nem água, ao mesmo tempo que o Governo enviou esta semana 4 mil militares para a fronteira com a Sérvia e anunciou que vai erguer uma nova barreira de arame farpado com quatro metros de altura e 175 quilómetros de comprimento. Junker, que enquanto presidente da Comissão fez um discurso emotivo no qual instou a Europa a constituir-se como um “farol de esperança e refúgio da estabilidade”, é o mesmo que, há uns meses, recebeu simpaticamente Victor Órban nas reuniões do Conselho Europeu, com uma palmadinha nas costas e um sorriso anunciando “o nosso ditadorzinho”. As instituições europeias, que se apressaram há uns meses em reuniões de urgência para punir a Grécia, continuam a olhar para o lado relativamente ao governo húngaro.

Em terceiro lugar, a Europa continua a não querer fazer nada que vá à fonte do problema. Por exemplo? O embargo à venda de armas para os territórios em conflito, já várias vezes proposto e várias vezes rejeitado no Parlamento Europeu. Outro exemplo? A moratória à compra de petróleo originário dos territórios ocupados pelo ISIS/Estado Islâmico, que é a fonte do seu financiamento. Só uma diplomacia ativa de paz, baseada também na redistribuição (de poder, de capital, de trabalho, de recursos) pode ser capaz de conter esta crise.

Por outro lado, a política de fronteiras da União Europeia continua a ser apenas baseada no patrulhamento e na repressão. Nos últimos 5 anos, é bom lembrar, foram gastos 1800 milhões de euros para fechar as fronteiras e reprimir os fluxos de pessoas. Programas de resgate e salvamento de vidas como o ‘Mare Nostrum’ têm sido suspensos e substituídos por programas securitários de patrulhamento, como o Tritão. Ao mesmo tempo, apenas 700 milhões foram para políticas de integração e apoio a refugiados. Sem virar isto do avesso, a lógica de fundo continuará a mesma.

Como acontece nos momentos mais difíceis, nos últimos dias a crise dos refugiados tem revelado o pior e o melhor da humanidade. O pior são as mentiras e a estupidez em torno desta questão (da “invasão” à infiltração de terroristas, dos smartphones à recusa da comida), feita de falsos mitos já desmontados pela imprensa. O pior é, ainda, a hipocrisia e a mesquinhez que procura opor o acolhimento dos refugiados à preocupação com os sem-abrigo, por exemplo, quando justamente as organizações e as pessoas que se mobilizaram para acolher quem foge da guerra são, no essencial, as mesmas que dão apoio aos mais pobres, como acontece no nosso país e foi salientado pela Plataforma de Apoio aos Refugiados.

O melhor são as manifestações de generosidade, espontâneas e organizadas, e os pequenos gestos de humanidade que, de Budapeste à Austrália, da Islândia a Portugal, nos dão alguma esperança no mundo, mesmo quando os poderes públicos regateiam cotas ou tardam em dar respostas. Este não é um momento qualquer. Saibamos estar à altura.