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Expresso

"Portugal à frente"

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Depois de sucessivas declarações cujo único objetivo era desvalorizar a empresa, o Governo anunciou a venda da TAP numa operação em que o Estado encaixa bem menos de um décimo do valor pelo qual a própria TAP comprou a Portugália em 2007 (adquirida ao Grupo Espírito Santo por 140 milhões).

Em junho de 2010, no Palácio da Bolsa, Passos Coelho dizia que “a política de privatizações em Portugal será criminosa nos próximos anos se visar apenas vender ativos ao desbarato para arranjar dinheiro”. A TAP acaba de ser despachada por 10 milhões de euros, menos do que o Estado gasta em oito meses para atestar os carros da PSP e GNR. Não é uma venda, é uma oferta aos privados. Ou melhor, uma expropriação do que era de todos.

Na última década, a TAP não só duplicou os seus resultados como conseguiu baixar, desde 2008, a sua dívida, recorrendo apenas a recursos próprios. Ou seja, apesar de atos de má gestão que a fizeram acumular passivo, a TAP é rentável e tem potencial de crescimento. Caso contrário, nenhum privado a compraria.

O negócio é por isso indecoroso e segue-se a outros semelhantes, como o dos CTT. Tanto mais que, mesmo que o caderno de encargos fosse respeitado (e nem sempre é o caso), as ligações-chave estão garantidas apenas por dez anos e a própria sede da empresa poderá mudar nesse período. Num processo feito às três pancadas, com propostas analisadas em 3 dias, calcando decisões dos tribunais, Passos Coelho apresenta o facilitismo como “coragem”. A mesma que faltou, por exemplo, para tentar sequer negociar uma recapitalização da empresa junto das instituições europeias.

No dia anterior a este anúncio do Executivo, Cavaco Silva fazia o elogio do Governo. O discurso do 10 de junho abriu oficialmente a campanha eleitoral do PSD e do CDS. Portugal “viveu recentemente tempos muito difíceis”, mas “conseguimos pôr-lhe cobro”, afirmou Cavaco. O mesmo Presidente que, há quatro anos, garantia que os portugueses não aguentavam mais sacrifícios. Cavaco acha que o mal já passou. Por isso, o país está bem e recomenda-se.

Não concorda? É porque certamente tem “tendência para não acreditar no futuro”, nas palavras do senhor presidente. Há mais 400 mil pobres? Não faça “da crítica inconsequente um modo de vida, um triste modo de vida”. Há 340 mil pessoas que abandonaram o país em três anos por falta de oportunidades? Não seja “profissional da descrença”, diz Cavaco. Com a austeridade, a dívida aumentou? Não seja “profeta do miserabilismo”. No fundo, não desestabilize. O país está bem: tem Passos, tem Portas, tem Cavaco, temos o Portugal dos Pequenitos com um bule gigante onde cabe o Primeiro-Ministro e Joana Vasconcelos, temos o 10 de junho e temos comendadores para dar e vender. Há uma empresa de bandeira, estratégica para a economia e o país, que acaba de ser vendida por tuta e meia? Sorria, estamos a ser roubados, mas está tudo bem. O costureiro de Maria Cavaco é desde anteontem Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique pelos serviços prestados ao país. Viva Portugal!