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Expresso

Toma o comprimido e cala-te?

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“Os adultos trabalham quase tanto como as crianças”. O alerta, feito em forma de provocação, não é novo, mas repetiu-se esta semana. O trabalho escolar das crianças prolonga-se cada vez mais tempo. Somando as aulas, as áreas de enriquecimento curricular e outras atividades, a média de ocupação ronda as 9 horas por dia, mais do que o limite oficial de trabalho diário dos adultos. Sobre-ocupadas, é cada vez menor o tempo que têm para brincar, para pensar ou simplesmente para não fazer nada.

Na semana passada, uma equipa de psicólogos chamava a atenção, no Parlamento, para o facto de haver cada vez mais crianças medicalizadas em função da sua “perturbação comportamental”. Para alguns pediatras, Portugal tem cerca de 80 mil crianças que deveriam ser diagnosticadas como “hiperativas” porque “na sala de aula não param quietas” ou “estão sossegadas mas ‘na lua’” ou porque, em casa, “são desobedientes e esgotam os pais”. O facto é que o consumo de meltifenidato (os comprimidos prescritos às crianças com “défice de atenção”, como a Ritalina ou o Rubifen) não para de aumentar no nosso país. Desde 2010, ele duplicou entre as crianças e jovens dos 5 aos 19 anos, de acordo com os dados do Infarmed. São milhares de crianças medicadas por terem “dificuldades de aprendizagem” ou por “frequentemente tornarem-se difíceis de controlar, tanto em casa como na escola”, segundo a definição do folheto do fármaco. Para a indústria farmacêutica, é um gigantesco negócio. De acordo com o Infarmed, a Ritalina significou em Portugal, em 2013, um negócio no valor de 7,5 milhões de euros.

O assunto é polémico, mas nem por isso deve ser evitado. Para alguns pediatras, este é o tratamento adequado e mais crianças que sofrem poderiam com vantagem beneficiar dele. Para outros, está-se a diagnosticar a hiperatividade por excesso e como forma de controlo. Um grupo de profissionais da saúde e da educação lançou o manifesto “Por uma abordagem não medicalizante nem patologizante da educação”, criticando a transformação de questões educativas em questões biológicas e psicológicas. A preocupação é bem compreensível. Se problemas como o insucesso escolar, as dificuldades de aprendizagem ou a desobediência às regras por parte das crianças passarem a ser vistas sob o prisma da “doença” que deve ser curada e objeto de terapia, a tendência é substituir o debate político e pedagógico – sobre democracia e obrigação de promover a igualdade – pelo imperativo médico e farmacológico.

Esta discussão parece esotérica? Talvez. Mas não é. E aliás tem acontecido por todo o mundo. Uma coisa é garantir que todas as crianças contam com o acompanhamento a que têm direito e com acesso aos tratamentos de que precisem – e há em Portugal equipas de médicos e psicólogos que fazem nesta área um trabalho sério e empenhado. Outra é aceitar que, à boleia de um problema real, se omita um debate de fundo: é com comprimidos que se resolvem os tais “problemas comportamentais”? O que é que isto nos diz isto sobre nós e sobre as nossas escolas? E sobre a realidade de os pais terem também cada vez menos tempo e de isso ser determinante na sobreocupação das crianças? O que nos diz sobre a obsessão dos exames que tomou conta das políticas educativas? O que nos diz sobre o poder médico e o papel dos profissionais de saúde? E já agora, o que nos diz sobre os interesses que prevalecem em cada uma destas escolhas? Estamos mesmo a pôr as crianças no centro, ou a responder à preocupação de técnicos que querem que alguns miúdos estejam “sob controlo”, de pais que querem eficácia nos resultados escolares, de professores a quem não são dadas condições para aguentar com tantas crianças e com tanta pressão e de uma indústria que beneficia com o problema?

No próximo dia 1 de junho, por todo o lado, ouviremos falar das crianças. As televisões vão fazer programas, as autarquias vão oferecer lanches e idas a parques temáticos, os supermercados vão ter promoções especialmente pensadas para a ocasião. Não seria de aproveitar a data para falarmos também de alguns assuntos que raramente ocupam o centro do debate público?