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Expresso

A TAP tem alguma coisa a ver connosco?

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Para uma boa parte das pessoas que viajou poucas vezes, ou pelo menos muito poucas vezes na TAP, pode parecer que o debate sobre a companhia aérea tem muito pouco a ver connosco. Mas a realidade é que tem – e muito. Pelo menos por três razões.

1. A primeira razão é que não é a primeira vez que estão a vender o que é nosso ao desbarato.

O que se está a passar com a TAP acontece ao mesmo tempo que o Governo está a concessionar a privados a Metro, a Carris (em Lisboa) e a STCP (no Porto) e vem numa sequência de outras privatizações. Como a dos CTT. Quando os correios foram vendidos a privados, há um ano e meio, cada ação custava 5,52 euros. Hoje valem 10,09 euros. Ou seja, em 18 meses quase duplicaram o valor. Porque os privados passaram a gerir melhor? Não. Os resultados financeiros estão em linha com o que acontecia antes. O que aconteceu é bem mais simples. Os CTT foram vendidos ao desbarato, como toda a oposição alertou na altura e agora não há como negar. A JP Morgan e a Goldman Sachs agradeceram. Mas nós perdemos todos.

Com a TAP passa-se a mesma coisa. Desde que bem gerida, a TAP é rentável. Na verdade, até tem tido na última década mais rotas e passageiros e saldos operacionais positivos. A dívida da TAP, que existe, não se deve a falta de “mercado” ou aos “excessos” dos seus trabalhadores, mas a negócios ruinosos como  a compra da brasileira VarigLog e da VEM em 2005, que tinha um passivo de 61 milhões de euros (negócio que está aliás a ser investigado pela Procuradoria Geral da República) ou da Portugália, em 2007, ao grupo Espírito Santo (por 140 milhões).

2. A segunda razão é que estamos mesmo a ser roubados.

A estratégia do Governo tem sido desvalorizar ao máximo a companhia. Os responsáveis repetem que a TAP é para vender de qualquer maneira, a TAP só não será vendida se não houver concorrentes interessados” (secretário de estado Sérgio Monteiro), “com alguma rapidez” (ministro Pires de Lima), e, se não for privatizada, o primeiro-ministro ameaça que a empresa precisará de despedir milhares de trabalhadores e “transformar a TAP em uma mini TAP” (Passos Coelho).

 Ou seja: a TAP é para ser vendida a qualquer preço, em tempo recorde e se não for assim não tem capacidade para subsistir como a conhecemos, alega-se. Quem quer comprar e ouve estas declarações sem sentido da parte de quem quer vender, já sabe que pode passar o cheque mais baixo que tiver à mão.

É tudo tão rápido, de resto, que o processo foi preparado num mês e meio, as propostas apresentadas pelos interessados foram analisadas em três dias (!) e, a semanas das eleições, pretende decidir-se o futuro de uma das maiores empresas portuguesas. Nos últimos anos, o Governo tem dado dinheiro às low cost, com o argumento do apoio ao turismo. Mas há 18 anos que a TAP não recebe qualquer apoio estatal. O Governo nem sequer procurou defender uma capitalização junto das instituições europeias. Nada. O único interesse é vender. Rápido e barato.

Dos primeiros três compradores, restam agora dois. Um (Neeleman) não cumpre critérios de nacionalidade exigidos pelas regras comunitárias para as companhias aéreas europeias. O outro (Efromovich) foi rejeitado em 2012, na anterior tentativa de privatização, por nem sequer apresentar garantias bancárias para uma oferta que era menor, num processo que está a ser investigado pela Justiça, porque tudo indica que pode envolver tráfico de influências e corrupção.

3. A terceira razão é a maior de todas: a TAP é estratégica.

A TAP é atualmente a maior empresa exportadora nacional, contribuindo positivamente para a balança comercial. Diretamente é responsável por 12 mil postos de trabalho e por 190 milhões de euros anuais de receita em impostos e contribuições para a segurança social. Mas mais do que isso, a TAP é a única companhia que faz voos diretos para rotas que interessam especificamente aos portugueses, como Venezuela ou Newark ou Joanesburgo, que resgata portugueses em risco em qualquer canto do mundo e que promove os produtos portugueses a bordo. Isto acontece porque é uma empresa nacional de capitais públicos. E nenhum caderno de encargos que faça parte da privatização vai garantir isto. Por uma razão simples: os privados não são mecenas. Farão o que der lucro e pronto.

Para defender que não podia haver greves na TAP, o Governo declarou, nas passadas semanas, que a TAP era fundamental para a economia nacional, fulcral para o turismo e essencial para as comunidades portuguesas. Nestes três pontos, até tem razão. Mas a TAP não é só fundamental quando há greve. É-o todos os dias. E é exatamente por isso que não pode ficar nos humores de um qualquer fundo estrangeiro. Deve ser gerida de acordo com os nossos interesses, de todos. Ou seja, tem de ser pública.