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Expresso

O homem que recusou um milhão de dólares

Entre matemáticos costumamos brincar com o facto de que, quando dizemos a alguém o que fazemos, metade das pessoas dizem “Nunca tive queda para a matemática!” e a outra metade diz “Deves ser um génio!”. A realidade é que, nem uma coisa, nem outra.

Esta semana falamos de Grigori Perelman, o matemático - supostamente genial - que recusa fama e fortuna. É ver!

Esta colagem da matemática à inteligência, ou até mesmo à genialidade é muito comum. É um facto que a opinião pública tende a considerar que quem se dá bem com a matemática é inteligente: quem faz um doutoramento ou se destaca na área é simplesmente genial. A verdade é que esta ideia está claramente sobrevalorizada, por várias razões. Em primeiro lugar, nós somos muito mais parecidos do ponto de vista de capacidades mentais do que pode parecer à primeira vista. O cérebro ainda é um mundo relativamente desconhecido da ciência, mas aparentemente a nossa variação de base em termos de capacidades cerebrais não é assim tão grande. Diria que a variação não é muito diferente da variação da nossa altura, claro que há anões e pessoas muito altas, mas a maioria da população tem alturas médias que não diferem assim tanto entre si. Do ponto de vista cerebral não deve ser muito diferente, a grande maioria da população tem capacidades de base que lhe permitiria ser o que quisesse, em particular matemático profissional.

Tal como a maioria das pessoas, se treinada, pode jogar basquete de forma razoável, o mesmo se passa com outras atividades intelectuais. Tal como em muitas outras coisas, podemos treinar o nosso cérebro, tal como se treina um músculo, para uma certa atividade intelectual: pode ser a matemática, mas também pode ser outra qualquer, a escrita, a arte, ou mesmo o humor. E da mesma forma que há jogadores da NBA com menos de 1.70 de altura, não creio que à partida o sucesso numa área intelectual esteja condicionado pela genética de base.

Claro que a posteriori tendemos a criar a ideia do “génio” que se destaca do grupo, fazemo-lo tanto na ciência como noutras áreas, desporto, literatura, artes. Provavelmente porque gostamos de uma versão da história mais hiperbolizada, é a mesma razão que nos leva a gostar de histórias de fadas ou de super-heróis: gostamos de sonhar e de nos imaginar no lugar dessas personagens. A verdade é que, não querendo tirar-lhe o mérito de um trabalho notável, Einstein não criou toda a teoria da relatividade sozinho, ele apareceu no momento certo e fez um trabalho notável, mas em cima do trabalho de muitos outros, como Lorentz ou do próprio Poincaré. Da mesma forma, Perlman não resolveu a conjetura de Poincaré a partir do nada, essa conjetura foi sendo resolvida para dimensões maiores ao longo dos anos e já havia grandes progressos em dimensão quatro quando Perlman colocou a última pedra, uma pedra brutalmente pesada é certo, mas num castelo que tinha vindo a ser construído por muita gente.

No final, creio que o fator decisivo para o sucesso, seja na matemática ou outra coisa qualquer, está muito mais na motivação certa, do que na capacidade de base. A pergunta que me parece interessante de fazer é: o que motiva alguém a passar anos a estudar ou a treinar algo para no final se destacar de um grupo? A resposta final é em geral é complexa, depende da nossa história de vida, experiências, influências. Estou convencido que este tipo de motivações extremas tem muitas vezes como origem causas pouco agradáveis, frustração, insegurança, complexos vários.

De qualquer forma, a nossa motivação última está muito na nossa dimensão social. É um facto que muita gente - supostamente - se dedica a algo pelo puro amor ao conhecimento ou ao facto de se superar a si próprio, ainda assim - quase invariavelmente - no final esperamos o reconhecimento dos outros. Perlman podia ter ficado com a solução para si, numa gaveta da sua casa em São Petersburgo, mas claro, não resistiu a publicá-la, de forma pouco ortodoxa é certo, mas, tal como o montanhista deixa a bandeira no topo para provar lá esteve, também ele quis mostrar que lá chegou. É verdade que podemos argumentar que o fez por puro altruísmo, para aumentar o conhecimento humano - neste caso particular até pode ter sido esse o caso - ainda assim, ao longo da história não há essencialmente registo de cientistas, artistas, ou outros criadores, que não tenham mostrado a sua obra ao mundo.

Nós somos essencialmente um ser social; até mesmo os matemáticos!

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