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Expresso

Porque é que a gripe só aparece no inverno?

É um facto que a gripe é um problema sazonal, só aparece no inverno. Mas porquê só no inverno? A fundo, ninguém sabe, o que se sabe é que tem a ver com o chamado número básico de reprodução, associado a uma infeção.

Esta semana vamos falar de epidemiologia e do número básico de reprodução.

De facto, o valor do número básico de reprodução, associado a uma doença, é condicionado por muitos fatores distintos. No caso da gripe ainda não se sabe ao certo quais são exatamente os fatores que levam a que este valor seja mais elevado no inverno. A verdade é que a gripe aparece no hemisfério norte entre Outubro e Maio, enquanto que no hemisfério sul - que tem o período frio durante o nosso verão - a gripe aparece nos meses de Maio a Outubro.

Há várias possibilidades para esta variação no R0, embora não seja claro quais os fatores determinantes. Uma possibilidade é que o vírus se dê bem com baixas temperaturas e que sobreviva mais tempo no ar e nas superfícies que tocamos. Pode também ter a ver com o facto de as pessoas estarem mais tempo dentro de casa no inverno e, portanto, facilite a transmissão do vírus. Mas também pode ter a ver com fatores menos óbvios: durante o inverno o nosso corpo está menos exposto ao sol, pelo que temos uma baixa de vitamina D o que deixa o nosso sistema imunitário mais frágil ao vírus. Ou pode ter a ver simplesmente com o início da escola, em ambos os hemisférios as epidemias de gripe tendem a aparecer depois das férias grandes. Quando a escola começa há uma parte significativa da população que passa várias horas dentro de salas de aula o que pode facilitar a dispersão do vírus.

Assim à primeira vista, o começo da escola pode não parecer uma causa provável por se tratar de um grupo especifico da população. Contudo não podemos esquecer que este grupo está completamente misturado com a população geral, á noite estes mesmos alunos vão para casa e contagiam os familiares. Normalmente nem conseguimos saber quem contagiou e quem foi contagiado. Um dos pontos fortes destes modelos matemáticos é tratarem a sociedade como um todo, só assim se conseguem fazer previsões deste tipo. Do ponto de vista da matemática da epidemiologia, é preferível esquecer o indivíduo e olhar para a população como um todo. Curiosamente este é muitas vezes um entrave quando se trata de levar os resultados destes estudos - por exemplo recomendações sobre os programas de vacinação - à comunidade médica. Os médicos têm mais tendência - e ainda bem - para olhar e tratar indivíduo a indivíduo e não para ver uma doença como algo global.

Mais uma vez, muitas das ideias que estão subjacentes ao número básico de reprodução, têm aplicações noutras áreas, por exemplo, na forma como certos conteúdos e ideias se espalham na net. Não é por acaso que dizemos que certos vídeos são virais. Um vídeo, ou outro conteúdo, quando colocado na net também tem de certa forma um número básico de reprodução, que está relacionado com o número de pessoas que partilham depois de o verem. A diferença entre um vídeo se torar viral ou não depende essencialmente da percentagem de pessoas que partilha - de certa forma infeta - esse mesmo vídeo pelos seus contactos.

Seguramente que o “Ice Bucket Challenge”, o “Harlem Shake” e o “Mannequin Challenge”, têm números básicos de reprodução maiores do que um!

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