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Expresso

A escola deveria ensinar também o que não se sabe!

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Tão importante como ensinar o que se sabe é ensinar o que não se sabe, a escola deveria constantemente deixar claro quais são os limites da ciência. Um dos problemas da escola é que todos os problemas têm solução no final do livro!

Mas antes de discutirmos esta questão mais a fundo, vamos ver um exemplo da vida real onde tropeçamos nos limites da ciência.

É de facto muito curioso como um problema tão inocente como encontrar a melhor forma de arrumar uns tubos, está no limite do que a ciência consegue fazer. Deixem-me enfatizar: esta é a uma boa forma de arrumar 31 tubos numa caixa quadrada,

contudo, não sabemos se esta é a melhor forma de arrumar os 31 tubos, ou seja, não sabemos se haverá uma forma diferente de dispor os tubos de forma que caibam numa caixa ainda mais pequena! Pode ser que esta seja de facto a melhor forma... mas também pode acontecer que exista uma forma melhor e ainda ninguém a tenha encontrado. Não sabemos!

Há situações onde já sabemos que foi encontrada a forma ótima. Por exemplo, esta

é mesmo a melhor forma de arrumar 13 tubos.

O que me parece é que este tipo de factos deveria fazer parte, de forma explicita, dos programas escolares. Passamos o tempo a ensinar tudo aquilo que se sabe e raramente falamos sobre o que não se sabe. Paralelo a todo o programa escolar está todo um mundo de desconhecido. É tão importante ensinar a fórmula resolvente para equações quadráticas como deixar claro que não há uma fórmula resolvente para algumas equações polinomiais de ordem superior. É tão importante ensinar o que pode ser calculado como ensinar o que não pode ser calculado e só pode ser obtido de forma aproximada. A meteorologia só calcula a previsão do tempo com uns poucos dias de antecedência, não porque não seja interessante saber que tempo vai fazer daqui por um mês, mas porque a ciência atual não o permite.

Toda a gente que já criou problemas para a escola sabe que, por vezes, um problema ligeiramente diferente pode ser uma dor de cabeça ou ser mesmo impossível de resolver. Os problemas são escolhidos entre aqueles que o professor sabe resolver e todos os outros omitidos e varridos para debaixo do tapete, criando a falsa impressão de que o professor sabe resolver tudo!

Não só deveria ser muito mais frequente enquadrar o que se ensina dentro das fronteiras do conhecimento, como deveria ser muito mais comum o professor assumir o seu desconhecimento. Por um lado, estamos a passar a mensagem errada de que toda a ciência está cristalizada, que já temos um domínio sobre quase tudo, por outro lado, não estamos a dar um bom exemplo, porque raramente mostramos a nossa ignorância.

Poucos alunos vão usar o cálculo diferencial na sua vida profissional, mas quase todos vão tomar decisões onde o conhecimento sobre as fronteiras do conhecimento pode fazer a diferença. Por exemplo, para o CEO da empresa que visitámos, é mais importante saber o que é possível fazer do que saber fazer os cálculos para encontrar a forma ótima de empacotar os tubos.

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