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Expresso

Isto é Matemática

Verborreia a metro?

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Se porventura conhece alguém que fala muito, mas não diz nada, por favor, passe-lhe este artigo. Não vale a pena queimar pestanas quando já há geradores de verborreia, completamente automáticos, e grátis!

Esta semana falamos sobre a matemática das letras, e como esta pode ser usada para gerar texto que soa bem, mas é vazio de significado. É ver!

Certamente, já lhe aconteceu ler algo, escrito com palavras caras e num lugar credível, mas não entender nada. Possivelmente pensou: - Bem, se calhar o problema é meu, passemos à frente. Errado, provavelmente o problema não é seu, acontece a toda a gente! Quantas vezes recebemos cartas das finanças ou outros organismos públicos e não entendemos o que querem dizer? E nos contratos, quantas vezes não entendemos metade das cláusulas? Para além de toda a verborreia pseudointelectual que nos chega às mãos.

Em vez de ignorar e seguir em frente, o nosso dever é denunciar, dizer que o rei vai nu! Normalmente, basta dar uma de ingénuo e dizer: -Desculpe, não percebi. Ou também podemos fazer como os brasileiros e dizer: -Oi?!...

É notável o trabalho da Claro, uma organização que se dedica a lutar contra a falta de clareza na língua portuguesa. A Sandra Fisher-Martins, fundadora da Claro, dá o exemplo do porteiro do seu prédio, que estava prestes a deitar o seu cheque cirurgia para o lixo porque não entendeu o conteúdo da carta que recebeu do Serviço Nacional de Saúde.

Na prática, esta verborreia, escrita por humanos, não se distingue da que mostrámos no final do episódio e foi gerada de forma aleatória por um computador - ambos são vazios de conteúdo. Naturalmente, a ciência não é exceção, e também aqui chega a praga. Por um lado, nas últimas décadas, tem havido uma especialização extrema - é muito frequente encontrar assuntos tão especializados que só um punhado de pessoas no mundo consegue entender. Por outro lado, tem havido uma grande pressão das instituições académicas e científicas para que os seus membros publiquem em grande quantidade. Estas instituições, têm criado sistemas de avaliação baseados na quantidade e suposta qualidade destas mesmas publicações. Tudo isto é uma mistura explosiva, não foi difícil começar a ver surgir a verborreia científica. Usando o palavreado adequado, uma hipotética complexidade de ideias, aliada a uma suposta autoridade académica, não é difícil fazer passear um rei nu, mesmo na ciência.

Uma das primeiras pessoas a denunciar o problema foi Alan Sokal, um físico da New York University. Ele conseguiu que lhe publicassem um artigo, que só dizia parvoíces, embrulhadas, é claro, no melhor jargão da área. O artigo intitulado “Transgressing the Boundaries: Towards a Transformative Hermeneutics of Quantum Gravity) ”, publicado em 1996 na revista Social Text, supostamente defende a tese de que a gravitação quântica é uma construção social e linguística, é na prática um grande amontoado de disparates, propositadamente nada no artigo faz sentido. O caso foi denunciado posteriormente num livro adequadamente intitulado Imposturas intelectuais.

O caso Sokal levantou alguma polémica e tem sido replicado em outras áreas científicas. Embora o artigo de Sokal tenha sido escrito pela sua própria mão, muitas destas novas iniciativas têm usado software para gerar texto aleatório. Atualmente, há quem crie portais na internet que criam automaticamente artigos científicos e incentive os visitantes a submeterem estes mesmos artigos para as revistas da especialidade.

Se sempre sonhou ser cientista mas a vida não lhe correu de feição, não desespere, aqui pode criar de forma completamente automática um artigo de ciências da computação, já com o seu nome como autor e as melhores referências bibliográficas, aqui pode obter um bom resumo para o seu trabalho de física das partículas, finalmente aqui pode retirar o seu melhor discurso pós-moderno, em português.

É verdade que ninguém vai perceber o que quer dizer, mas como ironicamente diz o lema do gerador de Lero-lero, que gerou o discurso do político no final do episódio, ”Lembre-se: aparência é tudo, conteúdo é nada” !

O programa Isto é matemática tem o apoio da Fundação Vodafone Portugal. Se perdeu algum dos episódios das nossas primeiras temporadas, ou simplesmente para recordar, espreite e subscreva os nossos canais Youtube e Facebook.