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Expresso

Porque há tanta gente que desiste da matemática?

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Esta é uma das perguntas que mais frequentemente me fazem. O primeiro problema da matemática é ter muitas razões para ser mal-amada, de qualquer forma, um dos problemas são as fórmulas. Eu já explico!...

Antes disso veja o vídeo desta semana e recorde os saudosos - ou não - videoclipes dos anos 80.

As fórmulas têm duas vantagens. Por um lado, permitem escrever de forma rigorosa e o menos ambíguo possível - a precisão é um dos grandes objetivos da matemática. Tudo o que é dito por fórmulas pode ser dito por palavras, contudo a linguagem corrente é bem mais dada a ambiguidades. Um bom exemplo, é a polémica que surgiu neste vídeo em torno de se se deve dizer “a soma do quadrado dos catetos” ou “a soma dos quadrados dos catetos”. Porquê entrar em discussão quando se pode escrever simplesmente

Por outro lado, as fórmulas permitem transmitir ideias de forma muito mais concisa. E a grande vantagem disso não é propriamente a poupança de papel, é tornar possível para um humano manipular grandes quantidades de ideias ao mesmo tempo. Há quem defenda que alguns dos grandes progressos na ciência se deram quando se criaram os símbolos corretos para descrever certas ideias. As fórmulas para um cérebro treinado são como muletas e atalhos para o pensamento, o nosso cérebro chega mais longe se tiver um papel e um lápis para escrevinhar umas fórmulas.

Mas então porque é que as fórmulas são um problema para a matemática? O problema é que as fórmulas tornam a matemática muito mais densa: qualquer coisa que seja dita numa página de fórmulas poderia ser dita em linguagem corrente, mas precisaria de muito mais páginas de texto. Um dos problemas disto é que demoramos muito tempo a ler um livro de matemática e facilmente desanimamos. A nossa motivação também é alimentada pelo número de páginas devoradas. Enquanto que num livro sem fórmulas podemos avançar dezenas ou mesmo mais de uma centena de páginas por dia, num livro com fórmulas é comum não conseguir avançar mais de duas ou três páginas por dia. E não se trata de ser ou não perito na matéria, mesmo para um especialista é normal ficar encravado durante horas numa fórmula. Claro que isto não explica todo o problema da matemática, ainda assim é uma enorme acha para a fogueira.

Quer então dizer que a matemática deveria ter mais prosa? Sim, também. Não é que se devam abolir as fórmulas, ainda assim, muitas vezes os livros de matemática são demasiado exatos e deixam implícitas muitas ideia, intuições e histórias em torno do tema. Na maior parte das vezes a forma como estão escritos está muito longe do caminho que levou a essas mesmas ideias. Tipicamente está tudo lá, mas não da forma mais agradável e fácil de entender.

Porque outro lado, quando pegar num livro com fórmulas, o melhor mesmo é partir com espectativas baixas em termos de páginas a ler. As fórmulas devem ser consumidas como um bom whiskey... pausadamente e apreciando cada gole... - não aos baldes, como a cerveja.

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