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Expresso

Tamanho da mão e esperança de vida estão correlacionados!

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Suponho que tenha sido atraído por este título bombástico. Será que o tamanho da nossa mão está mesmo corelacionado com a nossa esperança de vida? Sim, está! Será que isso é interessante? Não, não é! A não ser para ilustrar o que pode estar a acontecer num estudo deste género. Mas antes de explicar porquê, e se ainda não viu, assista ao episódio sobre correlações.

Por detrás de uma corelação misteriosa está muitas vezes uma terceira variável não identificada, que explica de forma trivial essa correlação. Esse é o caso da correlação entre a palma da nossa mão e a esperança de vida, que de facto estão negativamente correlacionadas. O que se passa é que as pessoas dividem-se em dois grandes grupos com características comuns: as mulheres e os homens. Como se sabe, a esperança média de vida entre as mulheres é significativamente superior à dos homens, por outro lado, em média, as mulheres têm uma palma da mão mais pequena. É isto que explica que surja esta estranha correlação quando analisados os dados em conjunto. Quando separamos os dois grupos, dentro de cada um deles não há qualquer correlação entre o tamanho da mão e o tempo de vida. Isto explica uma boa parte das correlações misteriosas.

Um bom lugar para procurar correlações curiosas é o Google Correlate. Esta ferramenta permite encontrar correlações entre dois tipos de pesquisas no Google e até mesmo cruzar pesquisas no Google com outros conjuntos de dados. Por exemplo, numa pesquisa rápida descobri que as buscas ‘bacalhau com natas’ e ‘leite creme’ estão correlacionadas, como se pode ver no gráfico abaixo.

Claro que uma análise mais detalhada ao gráfico permite perceber que provavelmente comer bacalhau com natas não provoca uma súbita vontade de comer leite creme, nem o oposto. São mais ou menos evidente os picos de buscas destas duas expressões por altura do Natal e uns picos mais pequenos por alturas da Páscoa, o que mostra em primeiro lugar que quem insere estas expressões no Google provavelmente procura receitas de culinária e em segundo lugar que a correlação é provocada por uma coincidência na sazonalidade da procura destas receitas. Mais uma vez acontece um fenómeno semelhante ao caso da palma da mão: neste caso, a variável escondida é o tempo. Este caso é análogo à bem conhecida correlação entre a venda de gelados e as mortes por afogamento em praias - estão correlacionados simplesmente porque ambos acontecem nos dias de calor.

Um dos exemplos que apresentamos no episódio é o caso da relação entre os testículos de um homem e o seu desempenho como pai. Este foi um caso que fez manchetes há alguns anos. Será que de facto o tamanho dos meus testículos está relacionado com o meu desempenho como pai? Não sei, e pelos vistos os autores deste estudo, publicado numa das mais prestigiadas revistas científicas da atualidade, os Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, também não têm muitas certezas. Para ter ideia do prestígio desta revista, no sistema de avaliação de desempenho da faculdade onde leciono, um artigo nesta revista pode valer tanto como 40 artigos publicados noutras revistas. Como sempre, os autores deste estudo jogam mais pelo seguro. Segundo eles, “os nossos resultados sugerem que as características biológicas dos homens refletem um compromisso entre o investimento no acasalamento e o desempenho como pais, como indicado pela relação entre o tamanho dos testículos e as funções do cérebro relacionadas com o cuidado parental”.

Por um lado, a atual capacidade de cálculo e o acesso à informação permitem encontrar facilmente correlações curiosas. Por outro lado, a pressão académica para publicar é muito grande. Se juntarmos isto tudo à necessidade de criar notícias apelativas, ficamos com uma mistura bombástica. Pelo que convém estar sempre de pé atrás quando se encontra uma destas notícias. Por ‘pé atrás’ quero mesmo dizer duvidar e adotar uma posição cética. Isto é algo que não demostra desprezo, nem pela ciência nem pelo jornalismo. Pelo contrário, torna-os mais fortes. A força da ciência vem justamente desta constante entrega do corpo às balas. A forma correta de um cientista - e do público em geral - encarar inicialmente uma descoberta cientifica é adotar uma postura cética. Quantas mais pessoas duvidarem e forem convencidas pelo posterior argumento científico, mais forte é essa teoria. Algo análogo se passa com o jornalismo, que precisa de um público exigente, que não pape tudo de ânimo leve.

Provavelmente, uma das maiores e mais polémicas discussões de sempre em torno de uma possível correlação é relação entre o tabaco e o cancro de pulmão. Em muitos casos concretos houve pedidos de indeminização pelos danos causados pelo tabaco. Durante muitos anos, a indústria tabaqueira argumentou que este era só mais um exemplo onde correlação não implicava causalidade, embora mais tarde, e a pouco e pouco, tenha assumido a relação de causa e efeito. Um dos últimos estudos a apontar esta correlação foi feito ao longo de 50 anos e teve como amostra os médicos do Reino Unido. Entretanto, houve muitos outros estudos complementares que tornaram evidentes os efeitos nocivos do tabaco.

E, finalmente, para mostrar que os cientistas também têm sentido de humor, deixo uma ligação para um estudo que mostra que existe uma correlação entre o tamanho da população de cegonhas na Europa e a taxa de natalidade.

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