Siga-nos

Perfil

Expresso

Apanharam-me na rua

  • 333

O escritor sente-se a perder o pé, o que se calha a ser sincero, acontece-lhe mais vezes do que aquelas que admite. Obriga-se a uma pausa para recuperar prioridades, tem de se organizar. É crucial perceber as coisas que precisa de fazer. Tem de acabar ao livro, é um facto, não vai devolver o adiantamento chorudo que a editora lhe pré-pagou, terá de entregar o romance para a feira do livro, e terá de fazer o esforço sobre humano de se deslocar à dita feira. O escritor levanta-se e anda pelo escritório, as mãos atrás das costas, pondera: ligo ao advogado por causa das cartas? Trato do livro ou simplesmente atendo o idiota do Jaime, histérico qual Carmen? O melhor será beber um copo de qualquer coisa e, a caminho desse desejo alcoólico, viu-se em pequeno numa fotografia. Ele, a mãe e as tias. Naquela época estava convencido de que tinha sido adoptado. Ele, de cabelos loiros e olhos claros, ao lado da mãe mais morena do mundo. Tinha sido enganado e isso dera azo à construção da personagem aparvalhada de Martim. Não era um bom personagem.