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Cara de parvo

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Paulo deixara Carmen conduzir não por opção, mas por não querer discutir. Percebia agora que o espaço de conflito na sua vida – além da mãe – estava reduzido ao consultório, no consultório os doentes podiam chorar, gritar, alguns até se aborreciam com ele e Paulo mantinha a pose. Há uns meses que tratava uma mulher que, recentemente, lhe dissera em consulta: “Não tem outra cara? Só essa cara de parvo? Eu estou aqui neste disparate e não se chateia comigo? Você não é humano.”

Paulo sentia-se humano. Sabia que tinha de controlar as emoções com os doentes, estava treinado para tanto. E existiam doentes de quem não gostava, a quem talvez desse dois berros mentais, porém nada transparecia. Era um bom actor. Jaime achava-o um bom actor, sobretudo agora, com a proximidade de Carmen. Não podia dizer que não gostava da ex-namorada do irmão, não podia dizer que a sua intensidade o esmagava, que era um possessiva e controladora. Agora entendia-a melhor.

(Fictiongram é uma ficção iniciada no Expresso Diário no dia 1 de Julho de 2015)