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Se queres ajuda, sê honesta

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Laura suspirou. Não era um acaso, não era um capricho. Se alguma vez existira uma dimensão de delírio na sua vida tinha sido há muito tempo, há mais de vinte cinco anos, aquela gravidez inesperada, o casamento apressado de Carlos e Maria Luísa. Tentou enquadrar o filho, explicar de forma sucinta, não se queria alongar. Paulo não lhe deu hipótese.

“Se queres a minha ajuda, por favor, conta-me tudo.”

Laura não sabia se era preciso precisar do filho. Quando era mais nova, admitia-o com facilidade, imaginava por vezes que os filhos desapareciam. Não morriam, ficavam apenas suspensos na sua existência para que a vida não lhe fosse tão pesada, para conseguir sair com os amigos, para rir às gargalhadas pela madrugada sem preocupações com horas de escola, com comida a existir no frigorífico ou nem por isso. Depois lembrava-se deles, os rostos de Jaime e Paulo, o coração encolhia e o arrependimento era gigante. Amava os filhos. Amava-os animalmente.

(Fictiongram é uma ficção iniciada no Expresso Diário no dia 1 de Julho de 2015)