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Expresso

E a memória conta tanto quanto o presente

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Carlos lembrava-se. O pai de Laura tinha-se desligado do mundo gradualmente. Quando chegou o dia do coração parar de bater violento, já não conhecia ninguém. A mãe de Laura despedira-se do marido sem uma lágrima, cansada. Partira nesse dia da realidade e, meses mais tarde, deixara-se morrer. Laura não falava sobre isso, nunca falara aos filhos sobre os avós, por se ter convencido que não prestavam, que não se tinham dedicado a ela. Laura optara por viver nas entrelinhas da vida de Maria Luísa por não ter um espaço que fosse possível reclamar como seu. Agora percebia que estava a chegar ao mesmo estado do pai. A cabeça começava a apagar pormenores, como pixels de uma fotografia, a realidade a desbotar, roupa suja e velha, era ela, a cabeça dela.