Siga-nos

Perfil

Expresso

E os filhos são os que queremos, não os que temos

  • 333

Laura manteve-se na cozinha, numa semi escuridão protectora que lhe agradava especialmente. Maria Luísa tomara um comprimido desfeito no chá e Carlos alegava que era imperativo conversar. Conversar longe dela, a sua mulher, a amiga de infância de Laura, um mecanismo de papel na mão com flores e casinhas.

“Quantos queres?”

“Três.”

Eram pedaços de vida que lhe surgiam, de forma inesperada, e Laura procurava algum consolo nisso, no passado. O passado como moldura de uma certa felicidade, pelo menos até ao momento em que Carlos a tinha beijado para depois a repudiar e regressar para Maria Luísa. Ela, Laura, era um desperdício e a ideia do amor fora consumada num filho que não conhecia. Os seus três maridos, relações tensas com homens com quem não mantinha contacto, não tinham tido qualquer hipótese, ela estava marcada por Carlos e por Maria Luísa, eram eles o fiel da balança dela e, sozinha, só chegava a um limiar de desequilíbrio que era permanente, era assustador.