Siga-nos

Perfil

Expresso

E quando se é enterrada viva

  • 333

Maria Luísa não a perdoaria. E, como castigo, primeiro gesto de rebeldia que veio a aprimorar, Laura limpou o rosto e, com imensa dificuldade, sentou-se na cama e proferiu a sentença:

“Leva-o tu, Carlos. Dá-o a Maria Luísa, para que não pensem que passou estes meses todos em casa sem razão. Eu sei que fiquei aqui como quem está enterrada viva. E tudo porque tu não tens coragem para ser alguém. Nem é para ser um homem, Carlos, é coragem para ser uma coisa viva.”

E ele não a olhou, ela com os braços estendidos, o menino adormecido, um cueiro de algodão branco, mínimo, mínimo.

“Leva-o, Carlos, leva o bebé daqui que eu não o quero. Pega nele e na tua mulher e vão a Lisboa, quando voltarem podem dizer que Maria Luísa o teve. Ninguém acreditará, é evidente, mas os comentários acabarão.”