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Expresso

Onde se explica o papel do pai e outras inconfidências

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Carmen tinha com o pai uma relação distinta. Como se vivessem uma vida escrita em duas linhas paralelas. Quando o pai ia a casa da avó, brincava com Carmen, perguntava pela escola e ainda, um dia, atreveu-se a dizer em voz alta que seria bom ela estudar.

“Assim, filha, podes herdar o consultório e o esqueleto.”

Carmen nunca considerara medicina, estava mais interessada em endireitar o mundo, tinha um fascínio pela lei e pelos contornos, curvas e contra curvas de um sistema que mal entendia. Lia de fio a pavio o jornal que a avó comprava todos os dias. Sabia coisas que os pais não sabiam, sabia pormenores da história actual que escapavam ao pai e, sinceramente, não considerava sequer possível estudar para ser médica e herdar o tal esqueleto que pendia os ossos logo na entrada do consultório. A avó, entendendo os seus silêncios, os ombros encolhidos, arrumava o assunto com alguma facilidade.

“Direito. Alguém tem de estudar Direito. O Martim que vá para Medicina. A Carmen seguirá o curso do teu pai, Deus o tenha.”

“O Martim? Ó mãe...”

“Se não têm mão no Martim, não mo digas. Avisei, avisei várias vezes que o teu casamento...”

“Mãe, por favor.”