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Expresso

Onde o útero materno não chega

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Decide que importa regressar. São oito e quinze da manhã. No andar de cima, os vizinhos falam alto. Não é habitual. Tenta não antever uma discussão. Não quer ter vizinhos que discutem às oito da manhã. Lá fora chove e esse atirar, essa agressão, é-lhe suficiente. Consegue antecipar os movimentos rápidos para evitar a chuva, a inutilidade de tudo, o corpo a ficar encharcado, apesar da gabardine, das botas. Andar depressa assusta-a, mas tudo a assusta de momento, já sabe. Corre para a boca do metro e imagina-se a entrar numa cápsula, num útero materno. Afasta a ideia.