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Expresso

Livros insuportáveis

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A insónia tinha várias origens e a mulher contabilizava as ralações enquanto passava os olhos por um livro. Fazia questão de trazer um livro consigo, para matar o tempo, para não ter de falar com ninguém. É conveniente. As pessoas respeitam e, ao mesmo tempo, acha ela, confere um certo estatuto. Pelas noites, os livros são apenas objectos nervosos que não a acalmam, as letras a pularem umas nas outras, como quem joga num trampolim, a mulher incapaz de se concentrar numa única frase. Insiste. Não quer pensar no futuro, na decisão que terá de anunciar aos filhos no fim de semana. É melhor voltar ao princípio do livro. Ir para um lar não é nada de extraordinário. Talvez extraordinário seja o facto de ser ela, aos oitenta e dois anos, a decidir que vai sem pedir opinião. Terão biblioteca no lar? Ou será que lhe chamam casa de repouso? A insónia permanecerá. Não consegue dizer o nome do personagem principal do livro que tem nas mãos, mas sabe de cor o horário das visitas do lar.