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Expresso

Cartas a um conhecido

Carta a Mário Centeno

A magia e as finanças

Exmo. Senhor

Ministro das Finanças e Presidente do Eurogrupo


Doutor Mário Centeno

Avenida Infante Dom Henrique, 1 1.0
1149-009
Santa Maria Maior
Lisboa


Mário,

Espero que esta te encontre bem, tão bem como dizes que estão as nossas finanças e tão bem como vai o nosso Benfica.

Bem sei que não é o melhor dia, ocupado que andarás PE cá e PE lá (não leves a mal o trocadilho...), às voltas com o Plano de Estabilidade que tanta instabilidade tem causado na maioria parlamentar. E que nos tem deixado a todos a pensar o que reserva o futuro ao Governo que diriges em acumulação de funções com o Eurogrupo. Perdoa-me, o Governo que o António Costa, nosso consócio do cachecol vermelho, dirige – mas com a ajuda imprescindível dos teus conhecimentos.

Não é à toa que te chamam mago das finanças.

É precisamente essa tua qualidade, esse teu jeito de Harry Potter dos balancetes, que me leva a escrever-te. Isto porque, esta semana, encontrei nas páginas do Correio da Manhã uma notícia que despertou em mim um misto de fascínio e interrogação.

Já te conto. Mas primeiro deixa-me lembrar-te que, como bem sabes, sempre fui cético em relação ao oculto (não o défice, entenda-se) e acredito tanto em bruxas e coincidências como em porcos a andar de bicicleta ou toupeiras que sabem mexer em computadores e roubar passwords para acederem a processos em segredo de Justiça. Essas coisas não existem. Ou melhor, não existiam.

A tal notícia fez-me repensar as minhas convicções. Ao que parece, um grupo de benfiquistas assim como nós pagou a um bruxo para anular os feitiços feitos por magos contratados pelo FC Porto. O nosso feiticeiro chama-se Fernando Nogueira e, diz, recebeu 20 mil euros para fazer o serviço. “Dei as minhas dez voltas ao Estádio da Luz e deixei nos locais certos as essências que vão destruir qualquer bruxaria que possa ter sido feita para que o FC Porto ganhasse o jogo”, contou o bruxo Nogueira (não confundir com o Bruno Nogueira, até porque acho que ele é do Sporting). O feiticeiro garante que está tudo “encaminhado para que as águias ganhem o jogo no domingo.” (é giro como já fala futebolês)

Por esta altura, deves estar a perguntar-te, e bem, como é que é possível alguém entregar 20 mil euros a um tipo para andar a fazer piscinas à volta do Estádio? Não faz qualquer sentido à luz de cenários económicos mais adversos. Mas o Nogueira lembra, e bem, que os tempos mudaram. E quando os tempos mudam, as pessoas mudam com eles.

Isto para te dizer que o que há uns anos se conseguia com meia dúzia de tostões, umas ervas estranhas e uma galinha já serve de pouco. “Já não se fazem trabalhos com galinhas pretas, isso é para charlatães. Eu uso 33 essências diferentes para combater o mal que outros prometeram que iriam fazer de forma gratuita”, explicou o Nogueira ao jornalista.

Ora, Mário, creio que analisando os números e as palavras, podemos concluir duas coisas. A primeira é que os benfiquistas são mesmo boas pessoas. Repara que eles pagaram ao bruxo para anular o feitiço do Porto. Não foi para o Benfica ganhar — foi apenas para que o jogo seja justo, isto é, isento de bruxaria acrescentada, o IBA. Se os muchachos do Rui Vitória quiserem ganhar, têm de fazer por isso.

E isto leva-me à segunda questão: por que raio não deram os tipos mais cinco ou dez mil euros ao homem para garantir a vitória do Benfica? Confesso que não sei muito sobre eles. Pelo que li, moram em Genebra, são uns vinte, devem estar cheios de dinheiro, e o bruxo esteve lá com eles esta semana. Estou a ver se te consigo os nomes porque de certeza que a malta das Finanças ainda arranja maneira de lhes sacar uns trocos em impostos ou comissões. Como não acredito em vassouras voadoras, imagino que o bruxo tenha ido de avião. Espero que com bilhetes comprados por ele e não oferecidos por uma gasolineira ou coisa parecida. Estou a brincar...

De qualquer modo, a questão mantém-se: se há mais dinheiro para gastar e, gastando esse dinheiro, podem melhorar a vida a seis ou sete milhões de benfiquistas, por que razão é que só gastam o necessário para a coisa funcionar? E se funciona mal e o Benfica perde?

Isto é muito estranho. Diz-me lá, Mário: se tivesses uns euros valentes para gastar e estivesses, sei lá, a uns dias ou a uns meses de um evento importante, como um jogo de futebol ou um orçamento de Estado, preferias abrir os cordões à bolsa e ter a certeza de que ganhavas, com os teus amigos a gritar que sim, que é isso mesmo, ou guardavas o dinheiro e esperavas pelo melhor a pensar em dias piores, correndo o risco de eles ficarem chateados?

Não sei o que pensar...

Habituei-me a ver-te no Estádio da Luz, ao longe, com binóculos e do outro lado do campo, porque o meu lugar fica longe da central e do camarote presidencial. Gostava de ter um lugar cativo, só que mais pelo lugar do que pelo cativo — não gosto tanto da palavra como tu.

Tendo em conta o que se passou este ano, com as confusões todas dos emails e dos pedidos e mais não sei o quê, imagino que vás ver o jogo na televisão. Na nossa televisão porque, e aí dou razão ao Bruno de Carvalho, se é para ver que seja a nossa. Não a deles. A nossa.

A bêtêvê.

Somos todos Jonas, amigo.