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Expresso

Cartas a um conhecido

Carta florestal a António Costa

Guia para um dia a cortar mato

Exmo. Senhor
Primeiro-ministro de Portugal


Dr. António Costa


Palacete de São Bento
Rua da Imprensa à Estrela, 4
1200-661 Lisboa

Excelência

Espero que esta o encontre bem, de preferência repousado, com a canjinha ao lume e pronto para deitar mãos à obra. Como diz o bom povo, sempre atento aos ventos que sopram: o que não mato, não arde.

Há mais de uma semana que o nervosismo me impede de ter uma boa noite de sono. Que dia glorioso esse em que anunciou que se deslocaria ao país real — a imensa parcela do território nacional que começa nas portagens das Ás todas que há em Lisboa e termina em Espanha ou no mar, o que surgir primeiro — na companhia de dos seus muy nobres e leais ministros para limpar a floresta.

As inúmeras horas que passei acordado — e fascinado com o seu dom, raro, de ver a floresta onde os outros apenas veem uma árvore — permitiram-me elaborar um relatório que, creio, lhe será muito útil.

É uma espécie de guia para quem vai para o mato com o objetivo de o limpar. Chamei-lhe GPQVPMOL (o nome puxa um bocadinho a essa confusão que para aí vai com o veneno e os espiões russos, mas não tem nada a ver. Garanto).

GPQVPMOL

Situação meteorológica:

Chuva e vento forte, pelo que se aconselha cuidados acrescidos nas deslocações e o uso de vestuário adequado.

Vestuário adequado

Longe de mim imaginar sequer que vai sair de Lisboa de fato e gravata. No entanto, temo que apareça no mato com aqueles casacos giríssimos que as pessoas em Lisboa usam para dar uma de duas ideias: vão limpar mato ou vieram de caçar javalis. Esqueça. Esta é uma excelente oportunidade de fomentar a atividade do comércio local, contribuindo para a criação de riqueza e, claro, para a fixação de portugueses nesses territórios inóspitos. Não se limite a ser alguém que acorda de manhã e se veste para ir cortar mato. Seja aquele que acorda de manhã e tem de se vestir para ir cortar mato. Como os que vemos na televisão. Sugiro umas calças de ganga cheias de lama, uma camisa de flanela aos quadrados, um kispo azul escuro e, se conseguir passar no Rato, um chapéu branco da campanha do PS das legislativas de 2009. Botas gastas ou ténis velhos.

Duração da ação de limpeza

Pelo que sei, esperam que Vossa Excelência, além de andar com a enxada e o ancinho na mão a aviar hectares de floresta, ainda arranje tempo para discursos e declarações à imprensa. É injusto, bem sei, mas não há outra forma. Dê-lhes o que tem de dar, mas depois regresse. Não a Lisboa, mas ao mato. Faça oito horas de trabalho à Benfica (que é o seu clube e o do Dr. Negrão) e, quem sabe, ainda lhe toma o gosto. Depois, com meia dúzia de ministros, crie uma empresa, pública e controlada pelo Estado, de limpeza de mato. A seguir um sindicato. Era de génio e, como verá, trabalho não falta.

Tópicos de conversa

Quando se encontrar frente a frente com um desses portugueses que moram nos territórios distantes é importante que mantenha a calma. Isso é malta que gosta de conversar — principalmente porque podem descansar um pouco e deixar de cortar mato. Portanto, não se perde nada se já levar do palacete um ou dois assuntos. Não são precisos mais. Como perceberá, é mais importante dizer do que aquilo que se vai dizendo.

a) Conte-lhes que são todos passageiros de uma viagem espiritual ao passado. É o momento certo para usar expressões “regresso às raízes”, “valorização da nossa relação com a terra”, “lançar as sementes para um novo interior”, “património natural”, “potencializar a herança ancestral” ou "aumentar a capacitação bem como a resiliência das populações". Coisas dessas.

b) Essa malta também gosta muito de falar de árvores e de frutas e de couves, principalmente quando são grandes ou estranhas. Tenho aqui uma fotografia que fui buscar ao arquivo, e que pode plastificar e guardar no bolso para lhes mostrar. Até calha bem por causa daquela coisa da Árvore Europeia do Ano. Garanto que lhe vão falar disso e quando eles vierem com a conversa do sobreiro assobiador de Águas de Moura, que tem 234 anos, 16 metros de altura e mais não sei o quê, vá ao bolso.

Ilustração Portuguesa (30 de março de 1914)

Ilustração Portuguesa (30 de março de 1914)

Hemeroteca Municipal de Lisboa

A fotografia é de 1914 e a azinheira que aqui lhe envio tinha um tronco com “oito metros de grossura” e a circunferência da ramagem ultrapassava os 100 metros. Para ter uma ideia, cabiam à sombra desta azinheira de Reguengos de Monsaraz exatamente 101 porcos, 956 ovelhas, um automóvel e algumas pessoas (reparo agora que estão todos com espingardas. Provavelmente tinham ido aos javalis). De qualquer modo, é mais vida do que aquela que há por estes dias em muitas aldeias.

c) É provável que, lá mais para o fim da jornada, os seus companheiros de trabalho comecem a dizer mal do Governo. Finja que não os ouve. Não é por mal, é só porque estão cansados. E porque já se esqueceram de tudo o que fez por eles. É graças a si que, a 24 de março, ainda podem estar de enxada na mão em vez de já estarem com a mão no multibanco a pagar multas.

Segurança

É o tópico que mais me preocupa. Temo que esteja a levar esta coisa de limpar mato na floresta demasiado a sério. Pelo que leio, será tal a debandada de gente importante que Lisboa vai ficar à mercê de uma invasão, sei lá, de pequenos proprietários florestais. Imagine que essa gente decide tomar os ministérios e brincar aos governos por um dia, todos de fatinho e gravata e canetinha para assinar papéis. E se gostam e querem ficar uma semana? Um mês?

Precisamente. Tirá-los de lá deve ser mais difícil do que limpar um pinhal.

Não lhe tomo mais tempo. Descanse e lembre-se de ir agasalhado.

Cumprimentos