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Expresso

Cartas a um conhecido

Carta curriculada a Feliciano Barreiras Duarte

Correspondência sobre a vida escrita de um homem

Exmo. Senhor

Feliciano Barreiras Duarte


R. São Caetano 9
1249-087 Lisboa

Excelência

Espero que esta o encontre bem, mas espero ainda mais que o encontre mesmo, atarefado que há de andar nas suas viagens, mais intelectuais do que espaciais, entre Berkeley e o Bombarral.

Acredite, doutor Barreiras Duarte, que quem lhe escreve é um cidadão preocupado, mas não preocupado exatamente com aquilo que preocupa o resto dos cidadãos. Não é que aquilo que os preocupa não preocupe também o autor destas linhas – que preocupa, claro. Mas há algo mais a preocupar este meu espírito simples e desprovido de currículo relevante: estou preocupado consigo.

Como bem sabe, engenheiro Barreiras Duarte, sigo há muitos anos o seu pensamento e, de certo modo, sinto que trilhamos juntos os apaixonantes, e errantes, caminhos da exploração do intelecto humano. Une-nos a geografia e também o que fizemos, o que fez o senhor engenheiro e a minha pessoa por arrasto, para a expandir. Recordo com saudade os seus primeiros passos tímidos e hesitantes no mar das letras. Éramos como crianças a brincar nas rochas exposta pela maré vazia na praia do Baleal – esse ritual de passagem para qualquer bombarralense.

Dizia-lhe, arquiteto Barreiras Duarte, que guardo com carinho, e numa estante junto à lareira que atenua os dias frios do Montejunto, duas das suas obras mais puras: "Apostar no Bombarral", de 1993, e "Um olhar sobre o Bombarral", de 1997. Mais do que livros, são testemunhos de um filho da terra decidido a mostrá-la — a terra, claro — ao mundo, a esse mundo que vai de Bombaim a Berkeley. Passo a correr por todos os incunábulos jurídicos que deu à estampa e acelero para dois dos seus mais recentes trabalhos, que aliás menciona no currículo que tanta polémica tem dado: "As Leis da Imigração dos Estados-Membros da CPLP" e "As Leis da Nacionalidade dos Estados-Membros da CPLP", ambos de 2014. Que maravilhosa jornada, a nossa.

Não me verá, caro sociólogo Barreiras Duarte, a contribuir para discussão em curso. Nunca frequentou a universidade em Berkeley? E então? Se quer saber, quem perde é a universidade de Berkeley. A Califórnia, ora essa. Haverá lá alguém que saiba tanto sobre a legislação local do Bombarral como o senhor reitor Barreiras Duarte? Também me parece, meu caro. Também me parece. E já nos vejo sentados, na esplanada do Café Portugal, a rir e a brindar com um bom Quinta das Cerejeiras, enquanto mandamos umas boas larachas sobre os americanos.

Divado. Divago sempre. Tinha-lhe prometido, cirurgião Barreiras Duarte, não perder uma linha a falar daquilo que todos falam. Falhei. Falhei redondamente. Resista, rogo-lhe, à tentação de se me dirigir com o título de um dos seus mais de 900 artigos publicados em jornais. Estou a pensar em "Mentiras e contradições..." (Jornal de Notícias, 2010) ou até em "O Alcoviteiro" (Região de Leiria, 2010). Nem sequer são os meus preferidos. Gosto muito mais de "O poder do prazer" (jornal i, 2014), "Analfabetos e Incultos Tecnológicos" (idem aspas aspas) ou até "O discurso que não fiz" — diz... que é bem malandro este último.

Perdoe-me a ousadia, caríssimo cardeal Barreiras Duarte, mas sugiro que se dirija diretamente aos instigadores e orquestradores desta tão vil campanha e lhes pergunte, sim, pergunte se nunca erraram? Como podem esperar que um lente de Lei, com tamanha produção intelectual, com dezenas (um conselho, não escreva "cerca de 21 livros" porque é estranho, a pessoa fica sem saber se são 20, 22, 21, 27...) de obras publicadas, com quase um milhar de artigos de opinião, que é secretário-geral de um partido com ambições de poder, como podem esperar que se lembre de tudo? Como?

Estou preocupado consigo, piloto-aviador Barreiras Duarte. Temo que, nas águas agitadas da mediática política nacional, dê por si cansado e fora de pé. Nesta hora menos fácil, não se esqueça da lição que podemos aprender com o corvo-marinho. Esse mesmo, que anda ali por Peniche, e as vezes pelo Baleal. O raio do bicho é capaz de estar horas na água a dar mergulhos, cada vez mais fundos e mais longos, para se alimentar.

Mas não é por isso, caro Felicano, que o corvo deixa de ser pássaro. É precisamente por isso que nunca será um peixe.

Saudações