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Expresso

Cartas a um conhecido

Carta encharcada a S. Pedro

São Pedro

Portas do Céu

Santo,

Espero que esta te encontre bem, que nós por cá... Nem te conto. Não é por não querer, que quero, mas porque acho desnecessário: tu vês tudo aí de cima. Até os meus pés encharcados.

Agora, diz-me: não se arranja aí um meio termo qualquer? É mesmo preciso passarmos das noites sem dormir à conta da seca para as noites em que não pregamos olho por causa da chuva e do vento? O que é vem aí a seguir? Gafanhotos? Não te irrites, não vale a pena, mas gostava mesmo de saber o que te fez este país para que o castigues tão severamente.

Quando era pequenino, a minha tia dizia-me que chovia porque os anjinhos estavam a chorar. "Estão tristes, filho." E depois, com toda a paciência, explicava-me a razão de tamanha tristeza. Uma vez era porque eu não queria comer a sopa, outra porque, no caminho para casa, tinha andado a tocar às campainhas da rua. Lembro-me que uma vez até ficaram tristes porque eu e o meu irmão partimos uma estátua da sala a jogar futebol com uma bola de meias. E era por isso que chovia. No verão nunca me portei mal.

Mas as pessoas crescem, aprendem a gostar de sopa, deixam de tocar às campainhas e até de jogar à bola. O problema é que continua a chover.

Já andamos nisto há quase duas semanas e, depois de falar com as pessoas que se dedicam ao estudo das tuas ações e razões - sim, os meteorologistas – estou um bocado assustado com o que preparaste para este fim de semana. Sinceramente, acho não só que estás a exagerar um bocado, como também que não pensaste bem nisto. É por causa desta coisa das toupeiras? Das armas de Tancos, que desapareceram e ressuscitaram? É o quê?Ou ainda estás chateado por termos uma geringonça com partidos de esquerda, daqueles que não acreditam que tu existes? Andaram tanto tempo a avisar que vinha aí o Diabo e, afinal, eras tu...

Correndo o risco de estar a contar-te coisas que já sabes - e eu sei que sabes porque tu sabes tudo e estás aí à beira de quem sabe mesmo tudo - impõe-se um ponto de situação. Achas normal que uma pessoa não consiga andar na rua, ali na zona de Mafra, com medo de levar com um sino na cabeça? E olha que não é um sino qualquer. Há ali alguns que pesam mais de 10 toneladas e quando os carrilhões começam a tocar ouve-se no céu. Espera...é por isso? S. Pedro, estamos a falar de um palácio que começou por ser um convento.

E a Torre de Belém? Sim, à conta do vento e das ondas e das marés também não se pode andar lá perto. Já agora, obrigado pelo estado do mar. Sempre quero ver como vamos resolver esta coisa do cargueiro encalhado no Bugio, esse Tollan da modernidade. Bom, mas estou a divagar. É por causa da Torre de Belém e do Palácio de Mafra e de outros tantos como esses que estou convencido de que tu não pensaste muito bem neste inverno. Sabes quantos turistas passam por ali todos os dias? Admito que não, mas certamente não ignoras o facto de que precisamos de turistas como de chuva no inverno. De pão para boca, digo.

Andamos a vender este retângulo aos estrangeiros como sendo o paraíso na Terra, com mais de trezentos dias de sol por ano, e depois é assim? Sol? Qual sol? Há quinze dias que não vemos, e resta-nos crer que ele lá está. Chegam as pessoas ao aeroporto, com os olhos vermelhos de ver no tablet as incríveis praias portuguesas, e é isto? As previsões estão de tal maneira que, na segunda-feira, se ainda houver praias será muito bom. Estás a perceber as implicações económicas da tristeza dos anjinhos? Pelo que ouvi dizer, a festa será tão grande que até Santa Bárbara foi convidada. Por que não? Chuva, vento, trovoada...

Repara bem: mais chuva, menos turistas; menos turistas, menos receita; menos receita, mais chuva. De impostos. Compreendes? Sim, já sei o que estás a pensar. “Vocês precisam de chuva, por causa das barragens e da agricultura.” É verdade. A minha tia dizia o mesmo: “Temos de ter couves e batatas boas, filho.” Eram iguais às que estavam na sopa que não comíamos, e depois os anjinhos choravam.

Tudo bem. Mas então porque é que não tratas da chuva assim como se fosse a gestão dos resíduos urbanos? Durante a dia davas uma trégua à malta, e aos camones, principalmente aos camones, e durante a noite abriras a torneira. Como os camiões do lixo. Sim, já estou a pensar na tua resposta: “Não é uma má ideia. Só que talvez não fosse justo para as pessoas que trabalham nesses departamentos das autarquias.” Tens razão, como sempre. E que tal se fosse como naqueles filmes de desenhos animados em que aparece um boneco com uma nuvem particular a largar chuva, mas ao contrário? Chovia em todo o lado, menos em cima do camião do lixo.

Bom, S. Pedro, desculpa maçar-te com estas coisas. Sei que estás cheio de trabalho e que pouco vais descansar nos próximos dias - há até quem diga que o tempo vai ficar assim até meados de abril. Espero que não.

Vou ali espreitar aos avisos laranjas e vermelhos, aproveito para lançar uma corda ao cão que está a boiar no quintal e amanhã ou depois vou à praia na maré cheia para ver o mar entrar pela terra dentro. Como está frio, ainda como uma sopinha. Para animar os anjinhos.

Um abraço

PS: Vê lá se ajudas a desencalhar o Tollan, de preferência sem o transformares num puzzle. E vai com calma