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Expresso

Cartas a um conhecido

Carta à Elvis para Bruno de Carvalho

Exmo. Senhor

Bruno de Carvalho, Presidente

Estádio José Alvalade
Rua Professor Fernando da Fonseca Apartado 4120,
1501-806 Lisboa

“I wonder if you're lonesome tonight
You know someone said that the world's a stage
And each must play a part...”

Parabéns, Presidente.

Espero que esta o encontre bem, mas a fazer fé em tudo o que se diz a coisa não está famosa, pois não? Ele há semanas levadas da breca e parece-me que o Presidente está a atravessar uma dessas semanas.

Eu cá vou andando, meio baralhado com toda esta situação relacionada com o Sporting Clube de Portugal. Confesso que não percebo nada de assembleias-gerais, acho qualquer conversa sobre estatutos tão aborrecida como uma assembleia-geral e o futebol, digamos, já me ocupou mais tempo. Mas há algo a que não sou indiferente: aos sonhos de uma criança. São esses sonhos que fazem o mundo avançar — ainda que não seja exatamente claro para onde e em que circunstâncias.

Vejamos o que se passou na segunda-feira à noite. Sentei-me diante da televisão após um dia de trabalho e mais uma hora dentro do carro, sozinho, a ouvir na rádio os lamentos dos jornalistas que estavam nas instalações do clube a que preside ansiosos por conhecerem a sua decisão relativamente ao futuro. E ali estava o Presidente, o menino feito homem. O sonho feito realidade. A realidade feita pesadelo.

Achei-o péssimo. Cansado, zangado. É sempre assim quando estamos prestes a acordar de um sonho bom. A televisão é terrível e, como bem sabe, muitas vezes quanto pior, melhor. Fiquei a ouvi-lo, incapaz de mudar de canal. As frases sucediam-se. Veio o “tinham VAR é no raio que vos parta”, depois o “tem sido um forrobodó no telemóvel da minha mulher”, mais o “não abram a pestana, não”, e ainda o “se quisesse era o gajo mais popular de Portugal”.

Senti-o agastado, mas eu estava apenas hipnotizado – a tal ponto que, ao fim de cinco minutos, roguei a um familiar que me esbofeteasse com força apenas para saber que não estava a sonhar. E foi precisamente aí que proferiu as palavras que mais me tocaram:

“O meu sonho aos seis anos foi ser presidente deste clube.”

É assim que se vê a fibra das pessoas. Eu, por exemplo, aos seis anos sonhava ser jogador de futebol, um daquele avançados que levantam o estádio com golos incríveis. Aos doze ainda sonhava com o mesmo. Mas depois, aos 14, num daqueles jogos no intervalo da escola, um colega meu, o Alfredo, que jogava nas horas, disse-me algo que nunca mais esqueci: “Tu sabes como é que se faz. Não sabes é fazer”. Foi o fim. Na altura não tinha carro, nem carta, mas se tivesse imagino que me ia sentar ao volante, sozinho, longe da família e a acelerar pela autoestrada em direção a lugar nenhum.

Imagine agora a minha surpresa quando, na quarta-feira à noite, leio no seu ressuscitado Facebook — talvez o mais revolucionário da era moderna do futebol português, antes e depois de o abandonar — que estava a caminho de Lisboa como se fosse um miúdo de 14 anos a quem tinham acabado de roubar o sonho mais importante no campo pelado da escola. “Dentro de 45m farei 46 anos, sozinho, na autoestrada, triste pelo resultado e longe da minha família. Isto é demais...”, escreveu o Presidente, antes, espero, de arrancar.

Sabe, Presidente, somos quase da mesma idade, e é uma idade dada a estas coisas. Do nada, começamos a pensar em tudo. Uns mais do que outros, é certo. Ao Presidente, por exemplo, na segunda-feira à noite passaram-lhe várias coisas pela cabeça. Veio o “vou explicar devagarinho”, depois o “está mortinho para deixar de andar na sombra e pedir aos peões de brega”, mais o “falha, saímos” e ainda o “da próxima vez que olhe para trás e veja uma parede é a vez que saio em definitivo”. O Presidente está forte nas imagens. Lembra-me o Alfredo a jogar à bola.

Sei que gosta de música e foi por isso que lhe dediquei aquelas pequenas palavras do Rei ao início. Não é o rei dos benfiquistas. É o Rei. Todos temos o nosso papel no curto período de tempo que passamos no berlinde azul. Veja o meu caso: podia ter sido um ponta-de-lança extraordinário e acabei a escrever cartas a pessoas que não as vão ler. Não há de acontecer consigo, ainda que as suas enigmáticas condições democráticas não me deixem muito descansado. Há três condições para tudo ficar como está depois de dia 17, duas têm a ver com alterações aos estatutos e a última é uma espécie de sim ou sopas. Agora imagine que ganha a primeira, imagine que ganha a segunda e imagine que perde a terceira. Sai? E se perder a primeira? Ainda se votam as outras duas? Ou sai logo da sala?

Presidente, não complique. Bem sei que o céu está cinzento, que chove e ainda está frio. Mas não é por ser o tempo ideal para o fim que o fim tem de acontecer. Por outro lado, se chegar a hora, lembre-se das palavras (emprestadas) que o Rei cantou, naquele fato branco cheio de efeitos dourados.

“And now, the end is near / And so I face the final curtain / My friend, I'll say it clear / I'll state my case, of which I'm certain / I've lived a life that's full /
I've traveled each and every highway / But more, much more than this
I did it my way”

Faça sempre à sua maneira. O Presidente sabe como se faz.

Cumprimentos

PS: Fiquei sem saber se a festa de aniversário que a Joana estava a organizar para domingo, depois do jogo em Alvalade, sempre avança ou não... De qualquer modo, vou aparecer. Oito e meia, no Café In. É 25 euros, não é?